Multiculturalidade e verticalidade poderão ser duas qualidades de Nova Iorque. A selva arquitectónica que afasta o sol do asfalto é percorrida na solidão, a par, ou inevitavelmente no conjunto por um manancial de culturas diferentes, surpreendentemente iguais. É engraçado sentir que, a anos de luz de qualquer capital europeia que conheça, as culturas que aqui passeiam não se estranham mutuamente. Tudo é parte daquele todo. Nem a mais nem a menos. O gueto social está mais do que dissipadíssimo. Nova Iorque, como em teoria o seu próprio país, não é terra de Americanos. A identidade e a vida da cidade está dependente daqueles novos Americanos. Com naturalidade, as diferenças culturais são vistas como acrescento social, praticam-se quotidianamente, enriquecem a cidade e não se perdem. A diferença é mesmo a regra. Ser diferente é ser Nova-Iorquino. É natural a mutação linguística das origens em novos sino-americanos, novos afro-americanos, novos latino-americanos... novos Americanos. E - águas passadas - surpreendentemente, ali não se sente o medo - nem o pior de todos - o medo do outro. E isso traz um grau de cordialidade que nunca senti. A ajuda é rápida, eficaz e até incomodamente invasiva. A planície geográfica e o ex-líbris da construção vertical obrigam à desorientação geral a cada saída do metro - total perda do Norte e de qualquer eventual ponto de referência, convenientemente escondido atrás de cimento. Nada nos faz desistir de caminhar, caminhar e caminhar. É perfeito o topo do Chrysler ao anoitecer.
Dois defeitos para a cidade - o desperdício e a decadência. O descartável é condição da grande maioria de cada gesto. A cidade claramente não é sustentável em nenhum tipo de consumo. Há um abuso ofuscante da lâmpada e do néon. Como símbolo que é, ainda se defende zelosamente o tão propagandeado "estilo de vida americano" e a desnecessidade prevalece. A cenografia de uma estação de metro nova-iorquina faz dar estrelas de qualidade ao Intendente. Nada do que tem qualidade advém da obra pública. O lado cinzento da cidade.


Missão: Almofadada 2008
Vem participar na maior batalha desde a tomada de Lisboa aos Mouros.
Traz os teus amigos, a tua família, os teus filhos, os teus pais, os teus colegas de trabalho e tragam as vossas almofadas.

INSTRUÇÕES
Data: 25 de Outubro de 2008 (Sábado), às 18h00.
Local da Batalha: Praça Luís de Camões.
Equipamento: Almofada macia + adereços + protecções de acordo com a vossa imaginação.
Disposição dos Guerreiros: Os guerreiros deverão colocar-se em duas longas filas viradas de frente umas para as outras, de acordo com as instruções do árbitro.
Início: Por volta das 18h00, o início da batalha será assinalado por um árbitro credenciado em almofadadas. Cheguem antes das 18h00.
Tácticas de Combate: todo o tipo de formações criadas pela vossa imaginação.
Fim: Imprevisível.
Após o Fim: Um abraço ao inimigo.

REGRAS
- Só podem ser utilizadas almofadas macias! - Sejam meigos. - Não batam com as almofadas em pessoas sem almofada ou com máquinas de filmar. - Tirem os óculos antes do início.- Este evento é gratuito e apropriado a todas as idades.

Outras guerras de almofadas realizadas noutras cidades:
Nova Iorque: http://www.youtube.com/watch?v=Gxd149-nQkQ
Caldas da Rainha: http://www.youtube.com/watch?v=NAwU92ynO7M
Outras missões em
http://www.marar.eu
Marar, um pouco de loucura saudável na tua vida


"Baroque bars and blocks of choc: this diamond capital is everyone's best friend.
The richly historic city of Antwerp is Belgium's most underrated tourist destination. Few places tangle the old and the new quite so enchantingly. Here eclectic Art Nouveau mansions stare back at Neo-Renaissance villas, and medieval castles provide a magical backdrop for the city's myriad bars and cafes." (LP)


"History, art, a head of beer and a roll-your-own.
Amsterdam is one of the world's best hangouts, a canny blend of old and new: radical squatter art installations hang off 17th-century eaves; BMWs give way to bicycles; and triple-strength monk-made beer is drunk in gleaming, minimalist cafes.
The city seems to thrive on its mix and, despite hordes of tourists, still manages to feel quintessentially Dutch. The old crooked houses, the cobbled streets, the tree-lined canals and the generous parks all contribute to the atmosphere." (LP)

Luxemburg (Galeria)


"A neat package of wonder and wineries, wrapped with ribbons of scenic delight.
Not even big enough on most maps of Europe to contain the letters of its name, Lilliputian Luxembourg makes up in snazz what it lacks in size. It has a wealth of verdant landscapes crisscrossed by rivers and dotted with the sort of rural hamlets that most people associate with fairy tales." (LP)

Ghent (Galeria)


"Medieval shipping town with plenty to see.
Southwest of Antwerp, Ghent was once a medieval-era powerhouse due to its 14th-century status as the largest cloth producer in Europe, and its rebellious nature when it came to tax increases. Now the capital of the Flanders province of Oost-Vlaanderen, it is home to a significant student population." (LP)

Bruges (Galeria)


"Be a walking exhibit in the living museum of Bruges.
Home to Europe's best-preserved medieval buildings, Bruges is Belgium's most visited town. Suspended in time 500 years ago by the silting of its river, this 13th-century city is blessed with two medieval cores, the Markt and the Burg, and some of the country's most compelling art collections.
In the middle of summer Bruges teems with tourists; out of season its beauty is an easier delight to behold. The whole historic centre of Bruges was added to Unesco's World Heritage List in 2000 and, in 2002, Bruges took centre stage as the European City of Culture." (LP)


"Chocolate moulded by surrealists and beer poured by old masters.
The city of choice for Eurocrats, Brussels is sumptuous, historic and luxuriously cosy. With artistry richer than chocolate, architecture as graceful as its cuisine and diversity frothier than the beer, Brussels is an heirloom of northern culture at its best.
What makes Brussels special? Seafood in great restaurants, the smell of hot waffles on a cold winter's day, cafes and pubs that never close, the cosmopolitan but neighbourly feel, forests practically on the doorstep, pheasant and truffles in autumn, comic strips, designer shops..." (LP)

Até pode ter a sua razão, mas nada lhe tira o rótulo de aproveitador da desgraça alheia. Mário Lino, ministro das obras públicas, que se esqueceu certamente que não deve comentar as notícias do dia, para não cometer as argoladas habituais, lembrou-se, em memória das vítimas do acidente do voo da AirSpain no Aeroporto de Barajas, sublinhar os perigos que trazem os aeroportos localizados dentro das cidades, enaltecendo e fazendo a apologia do futuro Aeroporto de Alcochete que projecta. Em tudo lamentável e de mau gosto o aproveitamento político de qualquer desgraça alheia. Hoje, infelizmente, ocorreu mais um acidente com uma automotora na linha-férrea do Tua. Já aguardo a hora em que um membro do Governo nos venha lembrar que a futura barragem, prevista por este Governo, também nos irá livrar dessas mortes desnecessárias, quando a sua construção obrigar à desactivação da linha.

"O amor, quando se revela, não se sabe revelar. Sabe bem olhar p'ra ela, mas não lhe sabe falar. Quem quer dizer o que sente não sabe o que há de dizer. Fala: parece que mente. Cala: parece esquecer. Ah, mas se ela adivinhasse, se pudesse ouvir o olhar, e se um olhar lhe bastasse pr'a saber que a estão a amar! Mas quem sente muito, cala; quem quer dizer quanto sente fica sem alma nem fala, fica só, inteiramente! Mas se isto puder contar-lhe o que não lhe ouso contar, já não terei que falar-lhe porque lhe estou a falar..."
Fernando Pessoa


Impressiona-me a entoação com que se refere a nacionalidade ou a etnia de um criminoso num jornal de televisão. Parece-me (e notem a minha ingenuidade mais do que forçada) que querem dar a ideia de que o estrangeiro, por ser isso mesmo, é sempre um potencial criminoso. Na apresentação da notícia pelo jornalista, além do pleonasmo de um qualquer crime, deixou de interessar responder ao como ou ao porquê do acto - se é que isso alguma vez nos interessou a nós ou a quem nos dava a referida notícia, compelidos apenas que somos pelo nosso voyerismo rural.
O facto é que a mensagem de um crime orbita quase sempre em torno da nacionalidade de quem alegadamente o pratica, sendo uma frustração quando a omitem, não vá o povo achar que se tratou de um crime português. "Nã, deve ter sido um preto ou um cigano! Eles vêm para cá todos!". A notícia é sempre sobre o cabo-verdiano, o ucraniano, o brasileiro ou o cigano - curiosamente personagens de um estilo só. Consequentemente o telespectador já espera que um cabo-verdiano ande aos tiros às portas de uma discoteca da capital, que um cigano se embrulhe em guerras de tráfico de droga ou que um brasileiro assalte uma agência bancária ou roube uma caixa de Multibanco. A notícia ao fim ao cabo só confirma aquilo que o português, mais reconditamente ou não, deseja - o comprovativo da justiça do seu preconceito.
Ainda continuo a achar que somos um povo maioritariamente racista. Uns inconscientemente. Outros tantos mesmo a gosto. Mas o facto é que associamos inevitavelmente a criminalidade à imigração ou à nacionalidade do agressor. Esquecendo todos os factores sociais que realmente a provocam. E esquecendo os estudos que indiquem o seu contrário. É que nem sequer é justo e imparcial um estudo desse género. Porque é que não se conhece da existência de um estudo que comprove a cleptomania dos algarvios, a brutidão dos nortenhos e beirões ou a corrupção natural e genética dos madeirenses?
Sendo um apologista da defesa da marca e do génio português, justiça então seja feita ao crime nacional. Há que defender o que é nosso! Mesmo que as notícias que monopolizam a nossa televisão se centrem no cabo-verdiano morto ou no cigano desalojado. Há que defender o que é nosso! Assim fiquem sabendo que, apenas com factos dos últimos dias, podemos chegar a brilhantes conclusões, do género daquelas que ousam defender que: todos os norte-alentejanos são pirómanos; todos os coimbrões são traficantes de droga; todos os lisboetas assaltam bancos; todos os aveirenses são piratas informáticos; todos os sintrenses desacatam a autoridade ao tiro; todos os saloios são ladrões contrabandistas; todos os algarvios matam gente no mar; todos os ribatejanos são pedófilos. E, imagine-se, orgulho dos orgulhos de uma nação e raça pura como a nossa - até nós temos o nosso "Solitário Português"!

Pontapé no palanque


Admiro a forma como um político constrói e apresenta um discurso seu. Sim, eu sei que o conteúdo de ideias maioritariamente é ilusionista, de bazófia, enfim, tangas. Mas aprecio toda aquela encenação de poder, cada vez mais facilitada pelas telas de cinema em fundo, pela figuração de público, pelos telepontos transparentes, que ainda não tornam indispensáveis os cartõezinhos brancos A8, que asseguram que o político se preparou e sabe, à partida, daquilo que fala. Dá-me gosto assistir ao espectáculo de tentativa de motivação colectiva.
Depois de Al Gore e Obama, pop political stars do momento, andarem por aí a pegar a moda da conferência/discurso política, com o consequente palavreado, carisma e eloquência necessários (with Keynote) essa escola de espectáculo militante ganha bases sólidas por cá.
José Sócrates, mérito por isso, tentou mais uma vez inovar na arte da apresentação política. A ocasião foi a apresentação da medida governativa n.º 6532, desta vez, o portátil académico para putos - o Magalhães. Ele já nos tinha mostrado no início do mandato, na festa das "Novas Fronteiras" (outro belo instrumento da política moderna esse - o conselho consultivo) que o futuro de Portugal estava num CD virgem. Desta vez, Sócrates dá o pontapé no palanque e toma conta do palco, tal qual Steve Jobs na apresentação de um i-Phone, discursa de corpo inteiro.


Agora que ainda estou de ressaca com o belo concerto de Kings of Convenience, na Cidadela de Cascais, finalmente, é lançada a edição especial da FNAC com o concerto, que também não pude deixar de assistir, de Nouvelle Vague, na Aula Magna. Vale mesmo a pena ter este trabalho. Mais Lisboa com os seus grandes concertos.

"Depois do sucesso, do homónimo "Nouvelle Vague", o disco que reunia regravações de bandas como Depeche Mode, Undertones, XTC, The Clash, Joy Division e Cure, é com melancolia, punk, new wave e bossa nova, que podemos caracterizar estes artistas, até se pode brincar, dizendo que, Nouvelle Vague, é mesmo a "Nova Vaga" de atitudes, ambientes e sons, pois, foi de novo, com artistas e estilos musicais díspares que esta banda francesa, buscar material novo para construir o segundo disco de “remakes” o Bande a'Part , seguindo a coerência do primeiro álbum. O sucesso continuou e apaixonou o público português. Este projecto criado em 2003 pelos músicos Marc Collin e Olivier Libaux aproxima os clássicos de toda uma geração, a uma nova que se avizinha. gora, descubra ou reveja como é Nouvelle Vague ao vivo em Portugal."


[Os aspirantes a oficiais do BOPE estão em uma aula teórica noturna sobre estratégia e o soldado 05 (André Matias) está dormindo.]
Nascimento: O conceito de estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês stratégie... Os senhores estão anotando?
Turno: Sim, senhor!
Nascimento: Vou pedir isso na prova. ...em inglês strategy, Em alemão strategie, em italiano strategia, em espanhol estrategia...
Auxiliar: Senhor coordenador! O senhor 05 está dormindo.
Nascimento: Oh, Senhor 05!
05: Sim, senhor!
Nascimento: Tenha a bondade. [Entrega a 05 uma granada e puxa o pino] Senhor 05, se o senhor deixar essa granada cair, o senhor vai explodir o turno inteiro. O senhor vai explodir os seus colegas, o senhor vai explodir os meus auxiliares, o senhor vai me explodir. O senhor vai dormir, senhor 05?
05: Não, senhor!
Nascimento: Estamos todos confiando no senhor. [Retorna à cadeira e guarda o pino, deixando 05 segurando a granada] Eu vou retomar o raciocínio. O conceito de estratégia, em grego strateegia, em latim strategi, em francês...

Tropa de Elite, de José Padilha (2007)


No âmbito da comemoração dos 250 anos do plano de reconstrução da Baixa de Lisboa e com o fim de dinamizar o debate em curso sobre a reabilitação da Baixa de Lisboa, está aberta ao público, no Pátio da Galé - Terreiro do Paço, uma exposição de grande qualidade, bem montada pelo designer Henrique Cayatte e esclarecedora sobre a planificação daquela zona da cidade.
O discurso expositivo assenta em três núcleos fundamentais: 1) os contextos e antecedentes [até ao Terramoto]; 2) o plano de 1758 em todas as suas perspectivas e características, com especial relevância para as questões metodológicas [os jogos de poder]; e, 3) a evolução da área-plano da Baixa entre a 2ª metade do séc. XVIII e a actualidade, na qual se expõe a estratégia delineada pelos executivos camarários para a revitalização da Baixa. O primeiro núcleo é constituído por painéis unitariamente compostos e impressos, incluindo o recurso a apoio audiovisual; o segundo revela os documentos originais, sendo o cerne temático do evento, enquanto, o terceiro núcleo é, sobretudo, composto por recursos audiovisuais, terminando com uma sala de "sugestões do visitante" para aquela zona da cidade.
A mostra de elogiar, só contrasta com a inacção do actual modelo de Museu da Cidade de Lisboa que, apesar de gozar de um excelente espólio, é mais que fraco e invisível na cidade, em comparação com os seus congéneres europeus. A esta, não faltem, todos os dias, até 1 de Novembro, das 11h - 19h.

Quem é este homem?


Quem é este homem? Que feitiço consegue lançar para criar uma mobilização deste género? Fora do seu país e com gente que somente quer ouvir a música de meras palavras e frases feitas? Obama é um daqueles políticos de geração, frequentemente efémeros, que ficam na memória e admiração. Quem lá mesmo no fundo não o admira? Pode ser superficial? Pode. Pode ser uma marioneta daquela soap opera americana clássica, previsível, que queremos contudo assistir, apesar do enredo demasiado perfeito, higiénico e sem erros? Pode. Mas, em todo o caso, fora um certo artificialismo inevitável, até que parece genuíno, dá esperança intuitiva num mundo melhor (que palermice!), consegue ser brilhante.
O seu último discurso, em Berlim, para um mínimo de 200.000 europeus e apenas enquanto "cidadão dos Estados Unidos da América e cidadão do Mundo" viu-se que foi propositadamente feito para ficar numa daquelas compilações de bolso da Penguin com os melhores discursos políticos do nosso tempo. Porque foi simplesmente medido, bonito e engenhoso - o texto, e, vá lá, a entoação de cada palavra que se deixava surfar na onda da ovação de 200.000 "populares". Em Portugal, e com portugueses, um homem, um discurso e uma assistência daquelas seria possível? Porque não?
O Mundo está a ficar tão bêbedo de Obama que Teresa de Sousa, na sua crónica da última terça-feira, no jornal Público, pedia ao senador Obama que refreasse o nosso entusiasmo, perguntando: "Iremos viver uma crise transatlântica de tipo novo, nascida de um excesso de expectativas e das frustrações subsequentes?" Esperando que não, acredito que sim. A frustração mais tarde ou mais cedo irá acontecer. Mas, no entretanto, é engraçado assistir-se ao nascimento de um político jovem, cativante e com algum peso, disponível para liderar uma agenda global. E nós à espera desse líder.

"...People of Berlin – and people of the world – the scale of our challenge is great. The road ahead will be long. But I come before you to say that we are heirs to a struggle for freedom. We are a people of improbable hope. With an eye toward the future, with resolve in our hearts, let us remember this history, and answer our destiny, and remake the world once again."

Kings na Cidadela

A minha sugestão já estava feita aqui e aqui, e também tinham sido eles a banda sonora escolhida para a viagem a Londres & Cambridge. Agora, é vê-los ao vivo, esta quinta-feira, em Cascais - Kings of Convenience e a sua indie folk-pop music.



"Your eyes are cold, I know you'll tell me all. Not to fall, I lean against the wall. I'm on the floor, not listening anymore. I should have known, the things to which you're prone. (You cross your arms, and tell no lies, a thousand thoughts run through my mind, a thousand words that I don't need, I never thought you could do this.) Your eyes are cold, I know you'll tell me all. Not to fall, I lean against the wall."


Apesar da inconstância da escrita ainda há quem, certamente por engano e pena minha, dê aquele malogrado clique que o faz vir ter a estas páginas. Mais um ano de Google Analytics permite fazer um retrato desses cromos (o relatório do ano passado está aqui, para verem a evolução e as diferenças).
De há um ano para cá (Junho2007-Junho2008) 3.394 pessoas visitaram o blog, num total de 7.107 visitas. [mais 57% do que as do ano passado]
O visitante médio perdeu 55 segundo no blog [menos 30 segundos do que no ano anterior], tendo vindo dos 5 continentes: Europa (5.859), Américas (1.166), Ásia (53), África (20) e Oceânia (4), num total de 63 países. Dos mais raros: Timor Leste (só 1 visita Sofia?), Bósnia, Emirados Árabes Unidos, Butão, Porto Rico ou Islândia.
Apesar do blog ser de língua portuguesa apareceram visitantes com sistemas em 27 idiomas, entre os quais: inglês (1.476), espanhol (111), francês (34), alemão (14), italiano (32), neerlandês (5), polaco (4), russo, eslovaco, turco (3) e, imagine-se, japonês (1).
O dia com mais afluência de visitantes foi sábado, 28 de Junho de 2008 e aquele que teve mais visitas absolutas foi quinta-feira, 6 de Setembro de 2007 (também este ano tenho de ir ver porquê).
A duração média de visita é de 55 segundos, um lusco fusco.
Vieram de 450 locais de rede.
21,96% vieram em tráfego directo (aqueles que têm o blog nos favoritos ou já conhecem o endereço de cor), 40,61% através de ligações noutras páginas da Internet e 37,33% através de motores de busca.
Ligações para este blog, este ano, existem 108 referências [mais 34 que no ano anterior], sendo o top10 dos maiores contribuintes para este tipo de visita: o Nimbostratus (355), as minhas Conversas de Canto (286), a Aaacm (175), o Bekices (150), a Lágrima de Dor (126), a Sho Mafalda (100), Nós Lindos (83), Bósforo de Almacy (63), a Arte da Fuga (48) e Corporações (42).
A categoria de textos mais visitada foi sobre "Viagens", e o texto mais visto foi o relacionado com o livro Montenegro de André Ventura. Na pesquisa, as maiores palavras-chave que direccionaram para cá foram, além das óbvias do título, o livro do André Ventura, Montenegro, e o quadro "The Barn" de Paula Rego. (why?)

Shotguns perdidos


Sei que o registo e descrição das várias paragens na viagem foram parcos em grandes desenvolvimentos, como o tinham sido o de outras epopeias. O objectivo inicial destes breves textos passava mais por dar uma breve ideia de cada cidade do que contar quais foram as nossas aventuras e desventuras ao longo daqueles dias. Aliás porque só com a passagem do tempo é que seria prudente um relato rigoroso da viagem. Quando saí da Índia há um ano acreditava piamente que jamais na vida voltaria àquele lugar, hoje as saudades e vontade de lá voltar são recorrentes. Mas só o tempo o denunciou.
As palavras que antecedem este texto não devem ser consideradas como a descrição da nossa viagem, mas apenas como as impressões tidas por mim com cada lugar visitado.
Daí que não tenha sentido grande necessidade de contar as condições e qualidades dos sete diferentes McDonalds que tive oportunidade de avaliar e criticar em cada cidade (à senhora da caixa do de Vilnius: por favor não volte a pôr as notas do troco em cima de um cheeseburger, nem a atirar ao desbarato as moedas para cima das batatas fritas e do tabuleiro). Daí que pouco tenha desenvolvido ou referido à forma como se reavivaram os nossos laços de irmandade. E daí, que pouco tenha adiantado sobre o verdadeiro significado das expressões daquele momento, como "relaxa" ou "shotgun". Porquê "shotgun"?
Aprendi que antes de viajar em conjunto com mais pessoas há que gerir muito melhor as expectativas entre todos para que as coisas corram melhor. E aprendi que durante essa viagem há que saber-se respeitar as expectativas de cada um. Mesmo que se estejam a demonstrar "furadas".
A viagem, por várias circunstâncias, não me impressionou. O principal facto passou claramente por achar que iria encontrar na Rússia uma civilização diferente da europeia, com outro modo de pensar e com vestígios de ideologia soviética ainda mais presente. Ora pois que não me impressionou quase nada, além do enorme gap social entre pobreza e luxo, aquelas paragens não eram mais ou menos do que as europeias. Daí que o que salve a ida seja sem dúvida os grande património da humanidade naquelas paragens.
Para a próxima, quero uma coisa que necessariamente me cause um maior choque cultural (e que não o choque dos bêbados finlandeses). E numa dessas, necessariamente, uma em que me leve sozinho e perdido.


Ok, não tem mar como as outras duas capitais do Báltico, apenas um rio. Mas, tal como Tallinn, tem o centro da cidade resguardado com uma muralha antiga, e um conjunto avultado de edifícios históricos no interior. Aqui neste lugar essencialmente igrejas... e mais igrejas (povo católico este!).
Finalmente conseguimos o tal descanso do guerreiro. Vilnius veio a revelar-se uma agradável surpresa, muito à conta da animação nocturna da cidade. E que animação! Bastante académica e "simpática", com todos os substantivos que uma noite desse tipo pode vir a trazer.
Como qualquer país Báltico previamente ocupado pelo jugo soviético, em Vilnius também existe um Museu das vítimas do Genocídio. Impressionante, o museu está instalado no edifício onde funcionava antigamente a prisão do KGB, tendo a cave prisional se mantido como era. Nas celas ainda ecoam gritos de sofrimento e alguns fantasmas de certeza, numa encenação onde a maldade humana nunca deixa de impressionar.
Vilnius é agora uma cidade jovem, com 70% de mulheres (os homens morreram na guerra ou vivem na Sibéria), e uma vontade de se desenvolver muito acima da média.


Das 05h30 às 10h30 da manhã, cinco horas em Riga chegaram para um shotgun até à terra seguinte. A culpa não era tanto da cidade, coitada, além do centro histórico era só uma cidade igual a muitas outras. Grande. Com arquitectura de qualidade e diversificada, misto de gótico medieval e art nouveau ao centro, misto de bloco cinzento soviético e bloco cinzento não soviético no arredor. Igrejas mais que q.b., tanto como o turismo sexual presente em cada esquina.
Riga não fez click nos nossos espíritos, que já ansiavam pelos dias do descanso final do guerreiro. Check-in feito, check-out feito. Partimos para outra.


Menos de duas horas é quanto dura a viagem de Helsínquia a Tallinn (cerca de 80km de distância). Por água e de barco, ultra-rápido, o que é bom, talvez um pouco ou quanto para o balouçante, o que não é mau porque não se trata daquele ondular constante de enjoo, apenas aquele baloiçar lento e acentuado de queda.
Antes de saber qualquer descrição, a certeza, Tallinn e os seus arredores valem mesmo a pena conhecer. Como lá dizíamos, trata-se de uma espécie de Óbidos nórdica em tamanho de cidade. Amuralhada. Pitoresca. Encantadora. Simpática. Muito simpática. Calma. Sossegada. Com muitos poucos habitantes (c. de 400.000), o que é excelente para um relax nas inúmeras esplanadas que existem no centro da cidade antiga. Um belo spot para umas férias "de café e noitadas". E a noite, a noite tem muito que se lhe diga... Digamos que se os terroristas muçulmanos suicidas conhecessem o sítio, não se aventuravam na explosão.
Ficámos no Old Town Backpacker’s Hostel. Excelente sítio, casa antiga recuperada, com uma grande sala comum, digna desse nome e apetrechada do que realmente se quer: um número suficientemente grande de sofás, uma mesa de matraquilhos, Internet suficiente e uma projecção permanente na parede, em cima da lareira, de filmes, música e futebol.
Tallinn, como qualquer cidade desta parte do mundo, também é lugar de contrastes. Tem aquele espírito de medievalândia, de cidade que parou no tempo, com os necessários bobos e figurantes vestidos a rigor pela cidade (muito "para turista"). Mas, fora das muralhas da cidade antiga, é suficientemente cosmopolita para ser escolhida como sede de empresas "topo de gama" das novas tecnologias, como o Skype.
No final da viagem, nos arredores da cidade, procurámos por duas vezes lutar contra o vento estónio. Uma vez, contra ele, andando de bicicleta. O que custa. Outra, a favor dele, a treinar o velejar. O que foi mais fácil.


Compacta. Mais pequena do que se podia supor. Limpa. Cosmopolita. Plana. Moderna. Cara. Organizada como qualquer capital do Norte da Europa. Helsínquia é vista num par de dias. Tudo o que é coisa, está ao lado de outra. A organização da cidade, transportes, eléctricos, bicicletas, tráfego (onde andavam os carros?) é de grande contraste comparada com uma cidade portuguesa. Edifícios brancos ou cinzentos. Calçada castanha e de granito preto, menos mal, podia ser de cimento.
Acontecimento memorável da visita. A premiere do filme "O Sexo e a Cidade". Tínhamos acabado de chegar ao Báltico e todos os preconceitos mitificados sobre a beleza da paisagem feminina comprovaram-se e acabavam de superar as nossas melhores expectativas.
Choque cultural da viagem. A saída numa sexta-feira à noite. Não importava a idade. Não importava o sexo. Basicamente não importava nada. Eram 23 horas. Estava bem de dia. Estavam todos na rua. Grandiosamente bêbados. Na rua. Bêbados. Divorciados, ou não, de meia ou mesmo na melhor idade, num dos vários bares a céu aberto da cidade, todos bêbados, travam conhecimentos, mais que fáceis, uns com o outros. O perfil alastra-se por toda a cidade. É o Verão, e literalmente é a loucura.
Gente estranha. Ao ponto de termos assistido a um desfile de samba, o Carnaval brasileiro em Helsínquia, em Junho, feito por Finlandeses. A animação das ruas é constante nesta altura "quente" do ano.
No mercado do porto de Helsínquia, celebra-se o abençoado uso do €uro e prova-se um dos melhores pratos de salmão saboreados até ao momento. Alertas próximos da mesa corrida, em plena "feira", onde comemos: "Beware for Seagulls". O cuidado nunca seria pouco.


Viajar de comboio é sempre um prazer. As carruagens cunhadas com foices e martelos, apesar de decrépitas no exterior, escondem compartimentos de qualidade bastante aceitável. Na estação de Moscovo, o busto de Lenine à partida despede-se. Na estação de S. Petersburgo, 600km depois, à chegada, o busto de Pedro, o Grande, saúda-nos. Em cada uma, um grande painel de parede em mármore com o mapa férreo soviético.
Aqui, nesta altura do ano, já não se pode dizer que exista noite. Viver noites brancas é uma experiência de vida. No máximo fica aquele "lusco-fusco" que existe no início do Verão, em Portugal, pelas nove da noite. A claridade permanente dá para aproveitar em grande o dia e a "noite". Oportunidade de negócio para quem se queira aventurar e investir em terras russas - exportação de estores e persianas nas janelas. Eles definitivamente não parecem conhecer o conceito. Os cortinados arrendilhados cinzentos não chegam para travar a luz do Sol às quatro da manhã.
Se os indianos fazem as filas ou bichas colando, o peito de um, nas costas do outro, os russos, salvaguardando a necessária distância de segurança, não a fazem de forma perpendicular ao seu objectivo, como se passa aqui, mas sim o mas paralelo possível. Pronto a 10-20 graus de amplitude para a direita. Uma fila deitada ao longo de um balcão, inclinando-se apenas o suficiente para dar lugar a outra ao lado.
Ao contrário de Moscovo, a cidade de São Petersburgo tem cor, alguma simpatia q.b. e respira história em cada esquina. Palácios em tons pastel (como o rosa presidencial), fábricas tipicamente russas, castelos e fortes marítimos, edifícios de arte nova, teatros oitocentistas, igrejas e catedrais ortodoxas, estátuas, pontes levadiças, canais e um grande rio não faltam na cidade dos czares. Verdadeiras réplicas do melhor que existia na arquitectura da Europa mais ocidental: os canais de Amesterdão, os palácios de campo de Versalhes, as igrejas com as colunatas do Vaticano, os edifícios marítimos ingleses, e até as catedrais acupuladas de Moscovo. A cidade, nascida de um pântano e que tentou congregar o melhor que havia em todas as cidades europeias, viu-se quase sempre a andar.
O Hermitage expondo apenas cinco por cento da sua colecção (não admira a necessidade do franchising e da exportação para o estrangeiro) traz uma dor de pernas e meio dia ganho na história da arte ocidental. Essencialmente, pintura - Rodin, Cezánne, Picasso, Monet, Gauguin, Matisse, Velásquez, Van Gogh, da Vinci. Vale bem a pena, sendo daqueles museus impróprios ao consumo prolongado num dia só. São necessárias várias visitas ao longo do tempo, secção a secção, tema a tema.
Os carros, numa média mas adequada a qualquer cidade europeia, mas mesmo assim com as suas preciosidades topo de gama, ostentam uma fita preta e laranja nas respectivas antenas de rádio. Mobilização nacional e, principalmente do que vimos, mobilização dos habitantes de São Petersburgo, trata-se de uma homenagem, não à participação da Rússia no Campeonato Europeu de Futebol, nem mesmo à sua recente vitória no Festival Eurovisão da Canção, mas à data de 9 de Maio. Dia da vitória ou da libertação dos russos na II Guerra Mundial. Um pouco saudosistas, não?


Estranham-se os desenhos do cirílico. Não se fala inglês, mas diz-se que sabem. Existe pouca simpatia e fluência no gesticular. As palavras da sinalética assimilam-se pelo ponto de vista meramente gráfico e artístico, sempre em comparação com aquilo que vamos coleccionando em preparação e antecipação.
O frio, mesmo agora, é constante, só nos aquecendo a incidência directa e prolongada do Sol.
O preconceito que nos amedronta assenta na insegurança e nas máfias da cidade. Nunca a senti, mas admito que exista. Não existe uma rua sem a presença constante de um ser fardado - polícia, militar ou guarda. O que não quer dizer nada. Às vezes o contrário. Em comum a todos, um grande chapéu guarda-sol na cabeça.
A cidade é cinzenta, pontuada pelos altos prédios de estética estalinista. Deprime a falta da iluminação própria da calçada branca portuguesa. Os símbolos soviéticos de um passado recente coexistem com McDonalds verdes e cirílicos.
A exposição dos supermercados reserva, no mínimo, um quinto do espaço para a mostra de aquecimentos espirituosos líquidos. A baixa do sítio - Arbat, traduz o "turismo" que existe na cidade. Artistas tocam na rua. Jovens bebem cerveja de lata. Vende-se tudo nas bancas de rua, desde o souvenir clássico, a máscaras de piloto soviético, cães, gatos, aguarelas. As matrioskas rurais, amarelas e vermelhas, são substituídas por outras caras como as do Harry Potter, Cristiano Ronaldo ou Vladimir Putin. O papo-seco não existe. O pão de centeio comum é grande, duro e consistente.
O modo de vida urbano é essencialmente modesto, ainda com a passagem nas ruas dos Lada clássicos, o que dá o contraste aos carros topo de gama que marcam presença em qualquer esquina da cidade. Com direito a estacionamento despreocupado nas ruas. Também o centro da cidade não prescinde de nenhuma marca de alta costura ou de acessórios de luxo.
Debaixo da cidade existe toda outra cidade subterrânea. A rede do metropolitano de Moscovo. Grandes salões artificialmente apalaçados com mármores, mega-lustres, esculturas clássicas e soviéticas. É notoriamente um dos mais profundos do planeta. O acesso efectua-se através de antigas, vagarosas e exageradamente longas escadas rolantes. No início e no final de cada descida às grutas, existe uma cabine de vidro onde permanentemente se senta uma funcionária pública tipo, pelos cinquentas, blusa às flores ou casaquinho de malha. Tem a zelosa e fundamental missão de verificar pelo monitor (a preto-e-branco) se tudo está a fluir pelo melhor. Pontos altos do seu dia profissional: alternar a descida ou subida da escada central e mandar alguns piropos, por microfone, àqueles que desrespeitam a seriedade daquele caminho. Nas escadas não se pode sentar. A descida demora no mínimo e sempre algo como dois minutos. Ou mais...
No Kremlim sente-se o centro do império. As catedrais valem mais do que a pena. Com novo contraste entre o excessivamente multicolorido e o fundo essencialmente sem cor. Vislumbrar o corpo embalsamado de uma figura dos livros de história universal (Lenine) é surreal, com proibições de expressões alegres, troca de palavras ou paragem no percurso de homenagem.
Os jovens invadem os parques. Dançam livremente com headphones. Vivem em liberdade.
O shotgun na cidade extravagante termina com um banho público russo, com zona quente e fria, mas sem os açoites de ramos verdes.


Todd Falkowsky, designer canadiano, defendeu há uns tempos que as cidades, e mesmo países e nações, possuem uma palete de cores própria. O fotógrafo e jornalista de viagens, Robert Wright, decidiu aplicar a ideia à cidade de Lisboa, atribuindo-lhe: os tons de pastel das fachadas dos edifícios públicos (chamando-lhe mesmo cores de Páscoa), o vermelho terracota dos telhados da cidade, os tons brancos e cinzentos dos importantes monumentos e calçada de pedra, os azuis do rio Tejo e dos azulejos lisboetas, e, o vermelho-cereja da ginjinha.

Alberto João Jardim afirma que infelizmente o próximo líder do PSD será um líder a prazo. Com esse alerta do veterano social-democrata fica a dúvida: Ter líderes a prazo não integra o próprio conceito de democracia? Ou na Madeira têm conceitos diferentes?


A pergunta pouco ou nada humilde é meramente provocatória. São apenas(?) 38.1% os jovens que sabem que é o Partido Socialista o "proprietário" da maioria absoluta de deputados na Assembleia da República. A fonte é o tão comentado estudo da Universidade Católica "Os Jovens e a Política", encomendado pela Presidência da República. O afastamento dos jovens da política, que arranjou nos últimos dias o sound-byte necessário e que fez agora moda, não é nem novo, nem exclusivo da juventude. A comunicação social já o começa a vender como novo escândalo, faltando-lhe a memória da maioria absoluta da abstenção no último referendo, e que só vem demonstrar que, no geral, o problema alarga-se a todas as faixas etárias, só se aplicando agora ao target jovem por mera conveniência de marketing (Quem quereria saber sobre "os idosos e a política"?). Todas as gerações actuais, antes ou depois de 68 e 74, encontram-se afastadas daquilo que classicamente se intitula por política. É um facto há muito assente e não é com meia dúzia de perguntas do género que se conseguiu ontem chegar à conclusão.
As razões já estão mais do que dissecadas, sabidas e estudadas, mas o tema é abordado hoje como se fosse a última descoberta do estudo do Pedro Magalhães ou um terramoto iminente cujas réplicas já há muito que se fazem sentir.
As pessoas interessam-se pelo que conhecem. Conhecem o que aprendem. Participam naquilo que gostam ou participam naquilo a que são ou se sentem obrigadas. Ou se adquire o gosto, ensinando os benefícios da boa nova cidadã, demonstrando que participar afinal "resulta", tendo efectivamente consequências palpáveis, determinantes e directas para a nossa vida - que a nossa opinião, por simples ou complexa que seja, conta. Ou se obriga as pessoas a meter a cruzinha no quadrado, a fazer exames de política actual e internacional e a exprimir a sua opinião sempre que seja pedida. Terceira via eficaz: pague-se a participação.

Mad World



"All around me are familiar faces, worn out places, worn out faces, bright and early for their daily races. Going nowhere, going nowhere. And their tears are filling up their glasses. No expression, no expression. Hide my head, I want to drown my sorrow, no tomorrow, no tomorrow. And I find it kind of funny, I find it kind of sad. The dreams in which I'm dying are the best I've ever had. I find it hard to tell you 'cos I find it hard to take, when people run in circles it's a very, very, Mad World. Children waiting for the day they feel good - Happy Birthday, Happy Birthday. Made to feel the way that every child should sit and listen, sit and listen, went to school and I was very nervous. No one knew me, no one knew me. Hello teacher tell me what's my lesson, look right through me, look right through me."

Basófias políticas

Há muito, muito tempo que não ouso aqui o comentário político. Justifico-o por já não andar tão em cima dos acontecimentos "de última hora", como andava antes, mas, acima de tudo acredito que esse lapso advém da falta de convicção política que nestes tempos tenho vindo a sentir. Não, não se trata de uma crise de identidade ou de princípios ideológicos. Esses orbitando para a esquerda e para a direita, mantém o seu centro de gravidade relativamente fixo há algum tempo e, aqui entre nós, felizmente. O que falta agora era aquele "à vontade" de opinar sobre aquilo que realmente se pense que se acredita, com aquela convicção de que se está dizer o pessoalmente certo e correcto e a garantia que dificilmente mudaremos de opinião. Arriscar algum opinanço parece-me cada vez mais chover no molhado, não acrescentando nada ao que já foi certamente dito, redito e novamente redito pela blogosfera - aliás não é meu propósito transformar este espaço pessoal em praça pública de referência.

Todos a marar!


Às vezes, e cada vez mais, vivo-me em piloto automático. É carregar no botão às segundas e bon voyage até me encontrar de novo, no destino dessa viagem. Até onde? Já ali. Falta muito? Mais um pouco... Se não me obrigar a fazer paragens obrigatórias - daquelas que nos cansam mesmo para barrotes - desligando o automático e fazendo desvios na viagem, o tempo passa sem que nos tenhamos visto lá.
Nessa linha, vivo com alguma expectativa o recente desenvolvimento por uns amigos meus de um grupo de guerrilha urbana. Objectivo? Combater a banalidade da nossa vida individualista e urbana. Criado dentro da rede internacional Improve Everywhere Global, o Todos a Marar promete momentos inéditos em Lisboa - Frozen Spaces, Pillow Fights, Food Court Musical, Look Up More, No Pants, Suicide Jumper... a imaginação é o limite.
A primeira cena que irão causar será um Mega Freeze em Lisboa, com cerca de 100 pessoas, ao estilo do que já aconteceu noutros lugares. Desafio-vos a juntarem-se.


Esta amiga e mais esta é que me costumam alertar para as novas ilustrações que vão saindo - e eu, sempre que lá vou espreitar, acho-as quase todas geniais e cheias de grande inteligência. Apreciem as Ilustrações, desenhos e outras coisas... da Ana Oliveira, aguarelas carregadas de um bom-humor, inteligente e viciante, num ponto de vista feminino, psicológico e caricaturista do dia a dia da ilustradora. As personagens que nascem das suas folhas brancas obrigam-me a correr atrás, sendo para mim impossível passar por lá e não rever sempre todos aqueles seres de novo. Resta-me vê-los in loco, aos Domingos de Crafts & Design no Jardim da Estrela, quando os desenhos são dados a conhecer e a distribuir pelo mundo.


O meu amigo André Ventura acaba de vestir a pele de romancista, escapando como pode das amarras jurídicas com que gosta de se prender. O livro Montenegro, editado pela Chiado Editora, está prestes a entrar no top da minha mesa-de-cabeceira, e até de lá sair não posso fazer grandes análises, comentários ou críticas insultuosas ou aclamatórias da ficção por ele criada. Fica aqui, no entanto e desde já, a nota de divulgação da obra e uma recomendação certa, mesmo que ainda não o tenha lido, para a sua leitura e aprazimento. Certamente valerá a pena ler.

"Segundo a narrativa do próprio André Ventura, “MONTENEGRO” começou por ser escrito ao acaso: um adepto incondicional do desporto, especialmente do ciclismo, um autêntico devorador de literatura e um contacto muito pessoal com o mundo da doença e do seu espectro atemorizador foram os três ingredientes que um dia se juntaram e determinaram as primeiras palavras da obra que acabaria por encerrar uma das mais bonitas histórias dos nossos dias.
Apesar de ter sido autor de uma série de artigos e monografias, especialmente no campo do direito ou da intervenção social, André Ventura tentou várias vezes, sem sucesso, levar a bom porto uma narrativa que, cada vez mais, ecoava no seu cérebro e no seu coração. Olhava o mundo em seu redor e projectava nele o atribulado conjunto das suas emoções internas, tendo sido cada dia determinante para a configuração de “MONTENEGRO” e do seu enredo dramático.
As tentativas foram variadas e frustrantes os resultados, que impunham ao autor uma sensação cada vez maior de impotência, de incapacidade comunicativa. Nas palavras do próprio autor “é como querer insistentemente dar à luz um filho, trazer uma nova luz ao mundo e depararmo-nos permanentemente com obstáculos mesquinhos que nos abortam a tarefa”.
Foi um facto curioso que o levou a decidir-se a terminar, de uma vez, a história de Luís Montenegro e da sua jovem atribulada vida. Apesar de incompreendido, de questionado, André Ventura continua a dizer que foi a notícia do lançamento do último filme da saga “Rocky Balboa” que o determinou a não desistir, fossem quais fossem os obstáculos que teria de ultrapassar e as frustrações pelas quais teria de passar.
Ver aquele homem, já para além da barreira dos sessenta anos, ter a coragem, a força e a determinação para reencarnar, uma vez mais, um personagem lendário pela sua robustez e resistência física, instalou no seu espírito um lema que ainda hoje permanece: “podemos ganhar, ou perder, mas há que terminar. Nunca desistir!”
“MONTENEGRO” explora ainda uma outra dimensão que o autor tem referido insistentemente: a dimensão religiosa. Simbolizado pelo misterioso sorriso de Mordechai, o pensamento e a religião judaica aparecem como pano de fundo (ou um dos panos de fundo paralelos) e chave de compreensão desta narrativa, precisamente porque o homem não se compreende sem a dimensão religiosa inata, imanente às suas aspirações e ao seu carácter.
Neste sentido, André Ventura é claríssimo ao afirmar que “MONTENEGRO” nunca teria sido possível – pelo menos na sua construção simbólica – sem a sua própria experiência religiosa, sem o conhecimento pessoal de como o espírito do sagrado influi e determina, independentemente da nossa concepção da vida, as nossas escolhas e os nossos próprios sonhos.
“MONTENEGRO” recebe ainda diversas influências estéticas e literárias, fruto da paixão do autor pela literatura espanhola e inglesa. Mas, como sublinha André Ventura, recebe sobretudo a influência dos lugares, da panóplia de lugares e de pessoas que marcaram a vida do autor ao longo destes anos: desde o ritmo festivo da cidade espanhola de Salamanca, ao pitoresco quadro inspirador das ruas do Porto e ao incrível mundo aberto das paisagens irlandesas, uma riquíssima herança existencial que não podia deixar de se projectar sobre o herói da narrativa e sobre cada um dos personagens de “MONTENEGRO”.
Porém, André Ventura sublinha que nada disto teria sido possível, toda esta alucinante viagem literária teria sido em vão se não o movesse um simples e estimulante objectivo: oferecer às pessoas do seu país uma história rica, bela e inspiradora que, mais do que conceitos, tramas ou enredos dramáticos, pudesse ser um contributo, um pequeno incentivo, a que nunca desistam da felicidade."

A descer a Avenida


Resgatado do baú das minhas memórias... escrito e publicado em Março de 2000, qundo não haviam blogs. Este ano, eles voltaram a descer comigo a Avenida.

"O dia que há já alguns anos esperava enfim tinha chegado. Descer aquela avenida pela última vez fardado de pinhão chegou mais depressa do que alguma vez havia pensado ou sentido. Surgiu como um relâmpago na minha vida, um silvo agudo que me acordara para um destino já próximo... o adeus.
Todo o sentimento que criara e que manifestara na minha alma de “Menino da Luz” é ainda hoje difícil de descrever e de exprimir. Toda aquela peregrinação desenterra em nós sentimentos escondidos de união, orgulho, dedicação e amor por uma causa... Amor de alguém que sente o Colégio porque o vive!
Toda aquela reacção por que já havia passado por 7 vezes completava-se agora por duas simples razões que vieram, como nunca tinha imaginado, enriquecer todo o meu sentimento de orgulho.
O facto de ser a última vez que a percorria aquela avenida como parte integrante do batalhão colegial foi uma delas. Sentir pela última vez os meus calcanhares a percorrerem aquele percurso fez-me comover e sentir aquilo porque já esperava, a saudade... Viver aqueles últimos momentos nos Restauradores, aliados ao grito vibrante do Zacatraz, fez surgir em mim um arrepio na espinha forte e único que nos obriga a rir de felicidade e chorar de saudade. Gostei, adorei, amei aqueles ínfimos momentos como ninguém, vendo a distância do caminho a tornar-se mais pequena do que alguma fez foi ou tornará a ser.
A toda esta complementaridade acrescia também o facto de levar atrás de mim novos “meninos da Luz”. Indiquei-lhes pela primeira vez um caminho de uma peregrinação eterna que irão percorrer sempre, presentes ou ausentes, por toda a vida. E por isso merecem um “obrigado” pelo momento único que me proporcionaram!
É meu enorme desejo que este caminho ainda se faça por mais vezes, por mais 3 de Marços, por mais aniversários e festas, por mais anos. Peço, quero, exijo que aqueles que eu levei atrás abrindo-lhes um novo caminho, o abram também a outra geração de “ratas” marcando e levando consigo a continuidade do Colégio Militar(...)"

Beirut vai actuar em Portugal a 27 de Julho, num local ainda a confirmar, enquanto os Kings of Convenience regressam para um concerto a 22 de Julho na Casa da Música (Porto).





Para a pergunta cliché dos "livros da nossa vida", um dos livros que sou capaz de atirar de repente passa, sem dúvida, pelo "Vermelho e Negro" do Sthendhal.
Primeira obra do género "romance"; o enredo situa-se em França, nos anos 30 do século XIX, e descreve a vida de um liberal bonapartista - Julien Sorel - sua ascensão ao poder e subsequente queda. Filho de carpinteiro, Julien procura realizar as suas ambições napoleónicas de escalada de classe, através do sacerdócio, gozando dos estudos e influências que isso lhe proporcionava. Apesar de algumas tórridas ligações quando estudava (e viva a novela francesa desta época), Julien consegue tornar-se padre e aceita o convite do Marquês de la Mole para se tornar seu secretário pessoal. A sua ligação com a filha do Marquês, Matilde, é a oportunidade para o seu enobrecimento, o que lhe permitiria o casamento com ela sem escândalo. A ascensão desejada de Julien tem, no entanto, os seus obstáculos.
Livro melodramático, apreciem: o selfmademan e a sua ambição "desmedida"; a luta pela glória na sociedade pós-napoleónica da Restauração; um homem, hipócrita e racional, contra uma sociedade francesa, cada vez menos revolucionária e cada vez mais conservadora, onde vigorava a necessidade de manter as aparências sociais e recuperar a ideia da casta dos "bem-nascidos".





Mais um grupo daquele estilo/género recentemente convencionado que é o Indie-pop. I'm From Barcelona tem origem em Jönköping, na Suécia, e a sua característica mais visível passará, sem dúvida, pelo exagerado número de membros - 29 elementos e uma mistura de instrumentos eclética como, clarinetes, saxofones, flautas, trompetes, banjos, acordeões, guitarras, entre muitos outros. É certo que muitos dos 29 membros limitam-se a fazer os coros de fundo, mas esse esforço colectivo, propositadamente "informal", vale a pena ser ouvido.
Certo dia, Emanuel Lundgren, fundador, líder e principal compositor desta "banda", juntou um grupo de amigos no seu apartamento para gravar algumas músicas "na desportiva". Feito o seu EP caseiro, conseguiu com que, estes mesmos, participassem num concerto ao vivo, em Agosto de 2005. O que todos pensaram ser o final de um projecto, acabou por gerar uma série de rumores sobre uma nova e excitante banda. De um concerto agendado passaram para muitos, inclusive o Sudoeste Português do ano passado.
A comunicação social sueca perdeu o controlo e inúmeros bloggers em todo o Mundo, aos quais me junto, partilharam o seu conhecimento sobre este grupo. "Let Me Introduce My Friends" é, até hoje, o único álbum, carregado de canções pop eufóricas e repletas de coros. O hino é "We're From Barcelona", mas eles afinal são suecos e vieram literalmente para a rua.

Falta futuro


"Vivemos neste momento, em Portugal, encerrados num debate sobre o caso de ontem e a justificação de hoje. Jornalistas, primeiro-ministro e oposição, antes e depois daquela entrevista, vivem empenhados num exercício de justificação que é no essencial sobre o agora e o pouco antes. O problema é que isso deixa de ser política. (...) Perdeu-se o longo prazo. Perdeu-se até o médio prazo, numa compressão temporal que torna tudo estático."

Rui Tavares no Público de 20.02.2008


Vi-o sem qualquer preparação e sem qualquer leitura prévia, além daquelas seis curtas linhas de uma sinopse de jornal. Into the Wild, de Sean Penn, mais que um filme, é uma história de vida contada numa tela de cinema, também ela viajada de um livro, de uma peça jornalística e de um acontecimento verídico, no seu todo e no mínimo, marcante.
Com a simples expectativa de um filme on the road, contava apenas com alguns momentos de paisagens naturais americanas e o melodrama habitual dos filmes e livros, que nos habituaram a ver e a ler, sobre viagens de rebeldia e juventude - isto é - grandes dúvidas existenciais durante pseudo-descobertas adolescentes da identidade perdida. Nem sabendo que se tratava de história verdadeira e real ou, talvez, de ficção muito inspirada, achei, antes de o ver, que o alvo estaria centrado na criação de mais uma obra satisfatória para uma nova geração rebelde americana.
A viagem até à carrinha mágica de Christopher McCandless, nascendo também de uma resolução de consolidação da personalidade longe das hipocrisias e dos consumismos da sociedade urbana, supera todo o preconceito sobre o género e merece, sem dúvida, uma ida ao cinema.
Um filme individualista e diferente de tudo o que já vi.

Evil Machines



Terry Jones, o lendário Monty Python, propositadamente não é modesto: "Evil Machines vai surpreender, fazer perder a cabeça e não deixar pedra sobre pedra! Da Broadway ao West End de Londres, de Hong Kong a Sydney, passando por todos os outros países, esta será a fantasia musical de maior sucesso na História de toda a Humanidade!". Aliado ao compositor português Luís Tinoco, esta opereta-fantasia musical cantada em inglês no Teatro S. Luiz, em Lisboa e em estreia absoluta mundial, vale a pena a visita.
Não esperem um grande argumento non-sense ou libreto de grande comicidade, não vão encontrar nada muito mais desenvolvido que uma história para crianças. Num mundo em que as máquinas e os seres humanos podem comunicar entre si e partilhar as mesmas esperanças e aspirações, certas máquinas têm uma agenda diferente e há que salvar o mundo dos desvairos delas. Nada de mais.
Fenomenais mesmo são os figurinos de Vin Burnham. Valem por todo o espectáculo.


Criada em 1991, a Candeia dedica-se, durante todo o ano lectivo, ao acompanhamento e formação das crianças e jovens institucionalizados na Associação Protectora das Florinhas da Rua (Florinhas), na Associação Crescer Ser, na Associação de Lares Familiares para Crianças e Jovens - Novo Futuro, no Centro de Alojamento Temporário (CAT) de Tercena, do Centro de Promoção Juvenil, do Instituto Conde Agrolongo, assim como de outras crianças e jovens provenientes de meios socio-económicos mais desfavorecidos, tais como o Bairro das Murtas, em Lisboa.
Hoje em dia envolve mais de 50 animadores, que acompanham cerca de 150 crianças ao longo de todo o ano, na organização e encontro de várias actividades.
Para que este projecto seja possível e porque a participação nas actividades da Candeia não acarreta qualquer custo para as Instituições apoiadas, a Candeia precisa não só de meios materiais e financeiros mas, fundamentalmente, de Meios Humanos…
Os Animadores da Candeia são na sua maioria jovens, entre os 18 e os 30 anos, voluntários, com formação específica e especial vocação, que preparam todas as actividades e acompanham estas crianças e jovens ao longo do ano e, muitos, ao longo da vida. Acreditamos que a qualidade da intervenção da Candeia reside na relação estabelecida com cada um dos “nossos” miúdos. Os Amigos da Candeia são os familiares, os amigos, os anónimos que conhecem este projecto, confiam naqueles que o executam e acreditam que vale a pena. E ainda conseguimos contagiar com o espírito da Candeia tantos anónimos que decidiram contribuir com donativos em dinheiro ou em géneros.


A tecnologia ao serviço do investigador, quebrando distâncias e ineficiências. Um modesto contributo.
"A Biblioteca digital Ardies tem como objectivo disponibilizar a edição electrónica da principal literatura jurídica portuguesa do século XIX - primeira metade do século XX. Na selecção das obras têm sido privilegiadas as que foram produzidas no âmbito académico, embora a colecção integre também outros materiais jurídicos, de natureza diferente, complementares das anteriores (códigos, repertórios, colecções de legislação ou legislação “avulsa”, colecções de decisões dos tribunais, debates parlamentares de matérias jurídicas, algumas obras de divulgação jurídica).
Produzida no âmbito do Cedis (Centro de Investigação & Desenvolvimento sobre Direito e Sociedade) e de projectos de investigação igualmente financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), para a sua realização têm concorrido ainda outras instituições, através da disponibilização dos originais a reproduzir e digitalizar. Entre elas destacamos a Biblioteca Nacional, Biblioteca João Paulo II da Universidade Católica Portuguesa, Biblioteca do Instituto Jurídico da Universidade de Coimbra, Biblioteca da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Biblioteca Municipal da Figueira da Foz, Biblioteca e Arquivo Histórico Parlamentar e Biblioteca do Ministério das Finanças.
Até ao momento já foram publicadas c. de 180 obras doutrinais, 10 projectos de legislação, 20 debates, 280 peças legislativas, 20 volumes de jurisprudência, acrescentando-se ainda a estes números algumas dezenas de índices, repertórios, textos constitucionais e fontes estrangeiras. Este conjunto será alargado, no futuro, quer através da publicação de obras já digitalizadas mas ainda não tratadas, quer da selecção de outras obras e materiais. Encontram-se também por concluir algumas das biografias dos autores das obras publicadas, embora a maioria esteja já disponível junto da respectiva obra.
O trabalho de coordenação deste projecto foi de António Manuel Hespanha e Cristina Nogueira da Silva, investigadores do CEDIS e professores da Faculdade de Direito da UNL. O trabalho de tratamento das obras, bem como de elaboração da respectiva ficha bio-bibliográfica, foi realizado por uma equipa de estudantes da FDUNL, composta por Joana Mota, Jonas Gentil, Luís Cabral de Oliveira, Ana Paula Lourenço, André Ventura, Raquel Galvão, Raquel Lemos, Tiago Cristóvão, Vera Martins, Soraia Gonçalves, João Amoedo e Anilda Veiga. O Secretariado foi assegurado por Ana Arriaga e Jorge Costa, sucessivamente. O trabalho de coordenação da realização técnica da página esteve a cargo de Rui Manso, Tiago Cristóvão e Vera Martins."

Próxima Paragem


Junho 2008

Dois Destinos


[texto escrito algures em 2000, tinha eu os meus ingénuos 17 anos, vencedor de uma menção honrosa do Prémio Nacional de Conto Eça de Queiróz Público/Ministério da Cultura, por ocasião das comemorações oficiais do primeiro centenário da morte do escritor]

“Um largo brilho de relâmpago alumiou aquele céu e aquele mar, consumindo toda a electricidade existente no quarto. Haviam, desde cedo, decidido por aquela pequena e pitoresca cabana junto ao areal, na expectativa de um fim-de-semana realmente romântico e estival. No entanto, e contradizendo qualquer previsão, da bela tarde de primavera que se viveu, renascia uma noite de negra tempestade.
Carlos, praguejando contra o falso boletim meteorológico da véspera e de braço pendente na cabeceira da cama, procurava encontrar a sua lanterna, numa das confusões, que cada vez mais se instalavam em algumas das suas malas e maletas, muitas ainda por desfazer, e que repousavam, sob si e a sua cama, gozando de conter os pertences mais necessários e desnecessários face a qualquer situação. Maria, pelo contrário, ouvindo o segundo trovão, e deixando-se levar pelos primitivos e recalcados impulsos infantis de pavor por tempestades, aproveitando o embalo do susto tido, já se refastelava protegendo-se junto ao peito de Carlos. Este vendo a sua interminável busca pela lanterna perdida já desnecessária, começava a apreciar o início de um doce momento...”


- Sempre chegaste a marcar o despertador?
- Carlos...
- Carlos! Não me estás a ouvir?
- Hã?
- O despertador. Para que horas é que o puseste?

“Maria era carinhosa e inteligente, uma Beatriz e Leonor só sua, a estrela cadente que caíra em Carlos depois de uma série de amores frustrados e desgastantes que desde cedo o consumiam de rancor e mágoa, obrigando-o à breve e tortuosa condição de questionamento de uma vida, de uma realidade e de uma própria e frágil existência, a existência de um simples arquitecto rotineiro, de um simples peão num universo, um universo que nos obriga, e o obrigava, constantemente a carregar um mundo paralelo às costas, pela legítima vontade de se afirmar e mesmo de livremente aprender viver.
Com o nascimento daquele novo, único, puro e indescritível sentimento, por várias vezes renunciado e amaldiçoado pelo próprio, Carlos adquiria, a cada hora e a cada minuto que passava, um novo ânimo, uma nova cor, uma nova vida. Maria fazia-lhe estar vivo para além da vida, alegre além da alegria e único além do Uno. Enfim ele amava-a e sentia-se amado. Partilhavam consigo os segredos da origem do Mundo, e respiravam um amor a quem nem Eros, nem Cupido, teriam setas tinham para o igualar.”


- Desculpa, mas sou incapaz de estar assim tão descansada, importas-te de me passar o despertador?
- O despertador?
- Sim, o despertador. Com certeza que não queres que eu me levante para o ir aí buscar. És de difícil compreensão caramba!
- Pronto, toma lá. A senhora está satisfeita agora?
- Obrigada. Agora lê à vontade que não te torno a incomodar. Eu não dizia? Afinal nem sequer lhe tinhas dado corda... Que horas são no teu relógio? Carlos... Não ouves... Deixa não faz mal. Eu regulo-o pelo meu. Depois se estiver atrasado cuidas-te... E podes crer que então já nem te quero ouvir.

“Para além de toda aquela beleza exterior e do calor magnético que emanava do corpo de Maria, factor que sempre encarou como apenas um cartão de visita para se conhecer verdadeiramente melhor o interior de uma casa, Carlos adorava ensinar e aprender com a sua ninfa, venerando-a como a um deusa e procurando com que todo o milésimo segundo temporal fosse espremido ao aproveitamento máximo, modos e maneiras que decerto a vida o fez assimilar pelo seu estilo de passagem rápida e rotineira, e igualmente pela já experiência adquirida, ao ver desfeitos os seus namoros mais promissores à primeira volta. Os tempos mortos partilhados e respeitados eram passados na constante admiração mútua, das formas, dos gestos, da voz, do ser, do todo que era cada um por si. Vivia-se no Paraíso mesmo quando subsistia o pior dos Infernos à volta.
Conhecera-a na inauguração de uma modesta exposição dos seus últimos desenhos e projectos mais promissores, ela usava qualquer coisa de prata em torno do pescoço, um vestido preto de cerimónia e aproximara-se dele perguntando: “posso exibir alguns destes desenhos na minha escola?”. Ele concordara logo e à medida que ia falando cada vez mais com ela, sentia-se cada vez melhor e melhor. Quando foi pela primeira vez à sua casa sentiu que a atmosfera daquele ninho, os livros, as músicas, a maneira de arrumar a casa, identificava-se profundamente consigo. Gostava da maneira como conversavam e da forma inteligente com que ela o obrigava a falar de si mesmo.
Aquelas mini-férias de fim-de-semana prolongado, agora estragadas, (ou nem por isso), pela imprevisibilidade de um tempo que nunca será nosso e que agora se levantara, mostrando-nos isso, eram para ambos o reduto do descanso, o descanso dos deuses e as suas resubidas ao Éden sagrado, o baluarte de uma nova vida que a cada dia que passava era refazida em mil planos e projectos, feitos numa entrega total ao momento e à vida mágica que entre ambos se instalara. Conhecê-la tinha sido, ao contrário de muitas outras coisas vividas, um nascer vivo e novamente para uma nova realidade, cheia de novidades e de extrema atenção.”


- Carlos...
- Outra vez? Possa, és mesmo chata....
- Desculpa lá, era mesmo só para baixares a luz do candeeiro. Que maçada, estou a ver que tenho de tomar de novo outro comprimido.
- Lê um bocado, experimenta, vais ver que resulta, e sempre é melhor do que engolires essas porcarias.
- Já não valem de nada filho. Depois de já ter experimentado quase de tudo, tenho a impressão de que estes comprimidos já não me fazem qualquer tipo de efeito. Far-me-á mal aumentar a dose? Talvez só mudando de droga... É isso, preciso de mudar de droga.

“As nuvens da véspera, talvez assustadas pelos raios e trovões sentidos, haviam, naquela manhã, desaparecido do tecto do mundo mudando drasticamente as tonalidades daquela tela artística: a cabana simpática e aprazível, típica e de madeira, onde se haviam instalado, e o horizonte do areal daquela deserta praia, varrido incansavelmente por um vento brando que zelava por manter a dinâmica deste quadro criado.
Levantaram-se cedo e trocaram as primeiras carícias do dia, felizes pela mudança súbita e mágica de um tempo convidativo para um novo passeio. Durante um pequeno-almoço leve feito com os ingredientes ali disponíveis e servido no varandim que observava o mar, questionaram-se sobre o futuro com aquele optimismo sonhador próprio de quem é jovem e crê que pode marcar a sua diferença. Uma diferença que queriam e idealizavam. Que iriam fazê-la. A diferença de que viveriam felizes para sempre para não cair jamais na comodidade do desacreditar nos grandes contos de fadas vivos e reais ainda tímidos e receosos na lembrança das suas ambas e não tão inocentes infâncias.
“As coisas profundas jamais mudariam”, diziam. A identificação que sempre tiveram, o reconhecimento que tiveram, a paixão do primeiro encontro, tudo isso continuaria igual e assim continuaria para todo o sempre. Ambos prometiam-se amar-se por toda a eternidade como já se haviam amavam muito antes de se verem pela primeira vez, a isso chamavam destino. Nada os poderia afastar. Seriam as pessoas mais importantes de qualquer Mundo e por mais trovoadas e nuvens que passassem de noite e de dia, tudo continuaria igual nos seus idênticos corações.”


- Se isto tem algum jeito. Santo Deus. Qualquer dia já não há comprimidos que me cheguem!
- Faço ideia, com essa mania que tens das dores de cabeça, de costas, de barriga, de rins, de pernas, de cabelo, isso para não falar daquela estúpida mania de emagrecer...
- Não filho. O emagrecer não é para aqui chamado, aliás o que é certo que têm dado resultado. Tu é que ainda não notaste! Se não consigo dormir, é por outras razões. Olha, talvez seja por andar para aqui sozinha a moer-me de arrelias e preocupações, sem ter com quem desabafar. Nem a porcaria da cadela me liga agora, abana-te simplesmente e aparvalhada o rabo quando chegas da rua. A ti! Tu, que nunca és capaz de lhe dar uma única festa ou de levá-la a passear na rua! Isso! Vá! Agora viras-me as costas. Não me ligas! Não te preocupa nada! Nem calculas a inveja que me fazes com essa tua calma e serenidade parva.
- Pois sim. Vê se dormes e pára de me moer o juízo.
- Mas sim, olha que eu não minto, fazes-me uma inveja danada. Contigo nunca há complicações que te toquem. Voltas sempre as costas e ficas positivamente nas calmas. Essa tua calma. Invejo-te Carlos. Não calculas como te invejo. Não acreditas?
- Acredito, que remédio tenho eu?
- Que remédio tenho eu... É espantoso saíres-te com isso agora. No fim de contas ainda ficas por mártir dando o teu famoso ar de coitadinho. E eu? Qual é o meu remédio, já pensaste nisso? Envelhecer estupidamente. Aí tens o meu remédio. E olha que esse é o único que não desiste de fazer efeito.

“Não havia desejo maior entre ambos do que abrir o coração um para o outro. Apetecia-lhes abrir os peitos com garras e à força, tirá-lo do seu repouso movimentado, e mostrá-lo a todos tudo quanto se passava lá dentro. Porque não há desejo maior numa pessoa apaixonada do que se revelar a si mesmo e ser compreendida pelo próximo.
Acabaram o pequeno-almoço e ele entrou em casa, ela acompanhou-o, mas a meio do caminho parou e voltou para trás, direita ao mar. Carlos, sentindo o seu retorno, saiu igualmente e ficou de pé no areal, a vê-la correr, primeiro chapinhando no final das primeiras ondas rasas e depois aventurando-se contra as grades vagas, saltando e sacudindo os braços, como se o corpo todo risse num conjunto de gargalhadas compulsivas. Estavam vivos e agora sabiam, mais do que nunca, disso.”


- A verdade é que são quase duas horas e não sei como vai ser amanhã para me levantar. Escuta... Não ouviste?
- Que é que foi agora?
- Não estás a ouvir nada? Gemidos?
- Gemidos? Só se for o meu estômago a reclamar aquele picante que puseste ao jantar.
- Deixa de ser parvo. Não ouviste? Parecia mesmo gente lá dentro, na entrada. Se soubesses os sustos que apanho sempre quando estou aqui sozinha acordada com insónias enquanto tu roncas que nem um urso. A Raquel lá nisso tem razão. Noite em que não adormeça veste-se e vai dar uma volta com o seu marido adorado a qualquer lado possível, esteja aberto ou fechado. E a qualquer hora! Eu cá para mim acho um exagero e um abuso, eu nunca seria capaz de te acordar do teu roncanço para te levar à trela a passear... mas, enfim, ela é que lá sabe. O que é certo é que se entendem às mil maravilhas um com o outro, pelo menos é o que parece e o que eles mostram. E isso, Carlos, apesar de ser a tal “gaja”, que tu dizes. Também, ainda estou para ter uma amiga que na tua boca ou no teu pensar não seja uma “gaja”, uma “tipa” ou uma “perua” qualquer. Nem sequer tens a preocupação de as conhecer primeiro, possa! Eu que te fizesse o mesmo. Era o fazias! Muito tinha depois de te ouvir!
- Vê lá se dormes e não me chateias que estou quase a acabar o livro. Chata!

“Carlos juntou-se a ela e tomaram banho juntos naquela praia deserta agora unicamente só deles. Lutando contra as ondas tal como daí por diante lutariam pela certeza dos seus destinos, precavidos e passando por baixo e por cima das dificuldades. Não pensavam em mais nada, em rigorosamente mais nada, tinham ascendido a uma iluminação de alma incandescente e encandeadora que os levaria a viajar pelos mais diversos países das maravilhas. Tinham em mãos os segredos da juventude e da imortalidade e não queriam desperdiçar tal chave para a felicidade.”

- Carlos...
- Que é?
- A porta de entrada. A rapariga de certeza que se esqueceu de a fechar como nós lhe ensinámos, de certeza absoluta. Não estás a ouvir?! Deixa! Não digas nada! Eu vou lá, não precisas de te incomodar.
- Caramba!
- Eu vou, deixa-te estar. Fazes nervos, puxa!
- Tu é que fazes nervos que não te calas.
- Eu? Andas não sei há quanto tempo a prometer arranjar a porta e ainda por cima dizes que te faço nervos? Era só o que faltava. Não, Carlos. Lê à vontadinha, mas por amor de Deus não embirres comigo. Eu vou lá, e para não variar, não te preocupes.

“Eram jovens, sabiam que só agora podiam ter a facilidade de acreditar e de pensar em como mudar o Mundo apenas com o instrumento do seu grande amor e a consciência de uma liberdade individual. Sabiam que todos os caminhos se ligam entre si e que nada na estrada da vida está perdido ou tem um só sentido. Sentaram-se no areal iluminados pela grande, e não eterna, estrela diurna. Deram um beijo e juraram ali mesmo contrariar o destino de envelhecer estupidamente discutindo pelos elementos mais básicos da existência, ou seja, por tudo e por nada que acontecesse ou nem isso. Dariam tudo um pelo outro e jamais ficariam de costas viradas entre si desprezando as necessidades, preocupações ou frustrações de ambos. Seriam o modelo da diferença sem possibilidades de despromoção à normalidade.
Deitados na areia fina daquela praia decidiram combater e contrapor a monotonia e o tédio que alguma vez os pudesse assombrar. Tinham coragem e principalmente partilhavam de um eterno inconformismo. Pensavam constantemente nisso, e o medo de tal situação, encarado tão de frente e de forma tão corajosa, iria a fazer com que a sua história não se tornasse uma simples história de ficção mas uma realidade possível e nossa vizinha. Exactamente aquilo que desejavam tanto e que queriam... uma inspiração visível para todos os que os rodeavam e só expiravam.”


- Já o acabaste, Carlos?
- Nem o irei acabar hoje nem nunca se tu não parares de me chatear e me interromper com a novela da tua maldita insónia. Vai ver televisão! Alguma coisa ainda deve estar a dar agora. Mas se forem televendas desliga e volta que isso só te faz mal.
- Mas afinal o livro é bom ou não?
- É um bocadinho lamechas mas até é interessante. É uma história de dois tipos apaixonados. Dois tipos novos. Um pouco ingénuos.
- Assim como nós éramos antigamente. Conta mais Carlos. És capaz de contar a história à tua mulherzinha querida? Como é que é?
- Ora, não me chateies, quase não tem nada que contar. É um rapaz que está na praia com uma rapariga.
- E depois? Conta mais, não sejas casmurro.
- Depois vão tomar banho juntos numa praia deserta de areia fina, sozinhos.
- Sozinhos numa praia deserta? Ora, tu não deves estar bom da cabeça a ler esses livros. Isso é só nos filmes dos milionários, lá naquelas ilhas do Sul. Ou eram milionários ou eram actores daquelas novelas que tu nem és capaz de ver.
- Não estes não eram nem actores nem milionários, acho que eram pessoas normais, como nós. E olha, quem me dera?
- Pessoas como nós!? Também querias lá estar era?! És mesmo parvo definitivamente. O meu Carlos queria lá estar no lugar deles. Queria ser um actor milionário o meu Carlos. Coitadinho está deitado na sua caminha com a sua mulher e gostaria era de estar deitadinho na areia de uma praia, não era?
- Cala-te Maria! Não te quero ouvir.
- O quê? Até parece que estou a dizer alguma mentira maldosa. Estás com pena da vida que levas, não é? Já não gostas de mim e queres outra? Não gostas da nossa vida como está? Falta-te alguma coisa?
- Cala-te Maria!
- Porquê?
- Cala-te, merda!

Arrumou o livro na sua mesa-de-cabeceira e apagou a luz.

De noite adormeceram ou acordaram porque só aí sonharam e só aí amaram, mas ao acabar o sonho, como qualquer um de nós, continuaram o que já sempre faziam, já não se lembravam de como tinham adormecido e do que haviam sonhado. E assim estupidamente viviam.
Tiago Cristóvão

40 dias se passaram


O resto da viagem não tem muito mais para dizer (finalmente acabei isto). Avião apanhado, com escala em Londres, e a mochila perdida por Londres durante uma semana. Viva a bagagem perdida já no Ocidente, depois de vários meses, naquele sítio, sem que nada lhe tenha acontecido!
40 dias se passaram, de mochila às costas, por aviões, comboios, autocarros, barcos, elefantes, jipes, bicicletas e autorickshaws da Índia e do Nepal. O relatório da viagem foi longo, demorado, mas por agora se termina até que novas aventuras tenham lugar. Foi certamente uma viagem de vida, mas certamente muitas mais virão de seguida. Quando sai da Índia, depois daqueles dias todos, confesso que sai literalmente farto daquilo. Os indianos foram, ao longo da jornada, predominantemente chatos. E o termo não é atirado para o ar, a maioria daqueles com que nos cruzámos eram melgas mesmo. Isso foi o ponto fraco da região. O grande ponto positivo, para quem quer viajar por estas paragens, é a certeza de conhecerem uma cultura realmente diferente de tudo o que até aqui já conheceram. Realmente há pessoas com crenças, hábitos, tradições, ideias, conceitos completamente diferentes do mundo em que vivemos. Neste planeta há pessoas e sociedades muito diferentes da ocidental, que todos os dias nos entra pela janela dentro. A ideia e o conhecimento disso valeu tudo e mais a pena. Para a próxima viagem, convidem-me. Abraço.

Lisboa / London / New Delhi / Varanasi / New Jalpaiguri / Darjeeling / Siliguri / Jaigon / Kalimpong / Darjeeling / Manebhanjang / Tonglu / Gairibas / Kalipokhari / Sandakphu / Rimbik / Darjeeling / Karkavita / Kathmandu / Patan / Sonauli / Gorakhpur / Varanasi / Mumbai / Panaji / Velha Goa / Fort Aguada / Calangute / Mumbai / Ahmedabad / Udaipur / Ajmer / Pushkar / Ajmer / Jaipur / Amber/ Agra / Fatehpur Sikri / New Delhi / London / Lisboa


Último dia em Delhi e penúltimo dia desta viagem inesquecível. Dormimos até mais tarde do que tinha sido habitual desde o início do mês de Junho. Tínhamos como missão do dia tratar dos preparativos para a nossa fuga para o Ocidente. Marcar um táxi com um preço justo que nos levasse até ao aeroporto; ir aos correios enviar livros que aumentavam substancialmente o peso das nossas bagagens; e passar pela casa da Yamini, a nossa amiga indiana, para o Philip levantar o computador portátil que lá tinha deixado, bem como o resto das coisas que acumulara nos seus vários meses de Índia.
Fomos até ao posto dos correios de Connaught Place, o centro comercial e financeiro de Delhi (em português traduzido por "Baixa da cidade"), o tempo de espera foi de cerca de 1 hora, mas os livros foram bem acondicionados e embalados num pacote de tecido, embrulhado e cozido na hora por um trabalhador. Seguiriam por mar e só em Dezembro viriam a aportar em Lisboa - coisa rápida. Almoçámos pela zona e voltámos para Paharganj, onde descansámos um pouco no hotel.
Bem que o plano era ir visitar outra coisa, designadamente o Túmulo de Humayun, segundo imperador mongol, mas a quota de visitas e turismo já estava há tanto tempo ultrapassada que ficámos a vegetar no quarto a ver 1 ou 2 filmes no Star Movies - grande canal de televisão indiano, "hollywoodesco", com filmes recentes e em inglês.
Por volta das 18h30, pusemo-nos a caminho da casa da Yamini. Novamente, ela lá esteve a explicar via telemóvel, gastando os últimos créditos telefónicos do Philip na Índia, o caminho ao nosso condutor de autorickshaw, e chegámos lá cerca de 30 minutos depois.
Não nos safámos a jantar lá em casa, na divisão reservada a quarto, sala de estar e de jantar. Foi engraçado perceber que nenhum dos habitantes daquela morada (mesmo o mais novo, que até queria ser hospedeira) percebia porque é que viajámos só por viajar - "se não foi em trabalho, nem estudo, para que é que foram dar uma volta à Índia?". Incompreendido, o nosso discurso tornava-se um pouco constrangedor, resultante dos períodos demorados de silêncio que se geravam de vez em quando. Mas quanto a hospitalidade, os indianos não brincam. Fomos sempre muitíssimo bem tratados pela Yamini e pela família, com direito a oferta de uma moeda indiana da sorte (acho que calhou mal, depois de dois jantares oferecidos pela família, não levar nada para recordação).
Regressámos para preparar as malas, não sem antes passar por um bar de Paharganj, para nos despedirmos da cerveja Kingfisher por uns tempos. O resto foi uma noite novamente de Star Movies. A partida seria já de seguida, bem cedo.


Durante os séculos XVI e XVII a corte imperial mongol residiu em Agra, antes de mudar a capital para Delhi. a cidade, estrategicamente localizada nas margens do Yamuna e ao longo da Grand Trunk Road, floresceu sob o domínio dos imperadores Akbar, Jahandir e xá Jahan, atraindo artesãos da Pérsia, da Ásia Central e de outras partes da Índia. Estes participaram na construção de luxuosos fortes, palácios, jardins e mausoléus, como o Taj Mahal, o Forte de Agra e Fatehpur Sikri, a capital abandonada de Akbar, todos declarados Património Mundial da Humanidade. Com o declínio do Império Mongol, Agra foi conquistada pelos Jats, os Maratas e, finalmente, pelos Britânicos, no início do século XIX.
Não havia tempo para tudo o que havia para ver/visitar, logo tivemos de fazer escolhas. Levantámo-nos bem cedo para aproveitar ao máximo o tempo disponível, saliente-se, muito bem cedo - pelas 05h30 da manhã. O Taj Mahal, primeira paragem, abria às 06h00 e a melhor altura de visita era mesmo essa, sendo que fora desse horário havia que suportar o descarregamento sucessivo dos autocarros com turistas, ávidos para conhecer uma das mais recentes sete maravilhas do Mundo.
Trata-se dos mais famosos monumentos do mundo, tendo sido construído pelo imperador mongol xá Jahan em memória da sua esposa favorita, Mumtaz Mahal, falecida em 1631. Devido à perfeição das suas proporções e admirável execução já foi descrito como uma "miragem, um sonho, um poema, uma maravilha". Este sublime túmulo e jardim, representação do éden islâmico, custou quase de 41 milhões de rupias e 500 quilos de ouro. Cerca de 20 000 operários trabalharam durante 12 anos para o concluírem em 1643.
Visitado todo o espaço, sentados alguns minutos simplesmente para a sua contemplação, e muitas poses e fotos depois, ao tradicional estilo Lady Di no seu auge e sentados no mesmo banco de pedra, saímos directos com destino à estação de autocarros e à vila de Fatehpur Sikri, a cerca de 40km de Agra. O tempo de que dispúnhamos era um pouco de contra-relógio, na medida em que tínhamos um comboio já reservado para essa tarde com destino a New Delhi.
Edificada pelo imperador Akbar entre 1571 e 1585 em honra de Salim Chishti, santo sufista da ordem de Chishti, Fatehpur Sikri foi capital mongol durante 14 anos. Um belo exemplo de cidade mongol fortificada, com portas imponentes e zonas púiblicas e privadas bem definidas, a sua arquitectura é uma fusão de estilo islâmico e hindu, reflectindo a visão secular de Akbar, bem como o seu modo de governação. Após ter sido abandonada, talvez por escassez de água, muitos dos seus tesouros foram pilhados. O seu estado de conservação actual deve-se aos esforços do vice-rei Lord Curzon, um lendário defensor do património. A cidade dispõe-se em terraços ao longo do cume do monte e divide-se entre dois tipos de complexos: o real e o sagrado. O complexo real contém os aposentos públicos e privados da corte de Akbar, que incluíam o harém, as casas das suas 3 esposas (uma hindu, uma cristã e uma islâmica) e o tesouro. O complexo sagrado adjacente, é composto pela mesquita Jami Masjid, o Túmulo de Salim Chishti e o Buland Darwaza. O túmulo do santo atrai inúmeros peregrinos, nomeadamente mulheres sem filhos, à procura de um milagre. Quem visita o dargah exuberantemente decorado por Akbar e seu filho Jahangir, pede um desejo atando um fio ao jali do túmulo e acreditando que o santo o tornará realidade.
À chegada à cidade-fantasma fomos acompanhados por um emplastro teenager indiano, que nos perseguiu ao longo de toda a visita, chateando-nos até vermos a banca de artesanato da família na mesquita e seguindo-nos até mesmo na estação de autocarros, quando esperávamos pela oportunidade de regressar a Agra.
Já em Agra, na breve hora que faltava até estarmos, como combinado, junto da agência de viagens onde tínhamos de levantar os bilhetes de comboio, decidimos ir almoçar e comer alguma coisa num dos terraços de restaurante com uma última vista para a magnificência do Taj. A sorte não estava a nosso favor, e o nosso simples pedido de um hamburger no pão demorou cerca de 45 minutos a se realizar. Quem conhece já imagina, o Philip começou logo a stressar com o tempo que nos faltava, e lá fomos a correr, com metade do pão de sésamo ainda na goela, buscar as mochilas, chegando, mesmo assim, cerca de meia hora atrasados ao ponto de encontro.
A pressa era tanta que quando chegámos à agência, ainda tivemos direito a descansar e a beber um chai. Eram 16h00 e o comboio só saía de Agra por volta das 18h00. A notícia foi a de que os bilhetes estavam noutra loja no meio da cidade, logo teríamos de apanhar um autorickshaw até lá, e depois outro até à estação de comboios. A loja referida localizava-se, mais uma vez, numa rua sem qualquer movimento e, inclusive, num prédio que me pareceu ainda estar em obras. Entrámos num gabinete decorados com mapas-mundo amovíveis e um pequeno globo na secretária. Novamente, tal como em Jaipur, entra uma personagem que nos pergunta sobre a nossa vida, que conhece a Costa da Caparica e que associa o nome de Portugal a Abu Salem. E que nos pergunta, por fim, quanto é que pagámos pelos nossos vistos e o que vamos fazer com eles depois de regressarmos a Lisboa. Avisando-nos que existiriam mil e uma forma de rentabilizarmos esse visto com a importação de produtos indianos para a Europa, e sem qualquer tipo de investimento inicial. Nós só queríamos mesmo os bilhetes de comboio e, mais uma vez, aquele filme suspeito foi vivido surrealmente. Com bilhetes na mão pusemo-nos a andar até à estação e daí, depois de uma curta espera na plataforma, de regresso a Delhi onde fecharíamos o circuito da nossa viagem.
Ainda no comboio ficámos sentados, em 2.ª classe, junto de uma família indiano muçulmana, com um bébé recém-nascido nos braços da mãe e vindo de uma cerimónia religiosa a ele dedicada. A ocasião valeu uns minutos em modo repeat one "Twinkle, Twinkle, Little Star" by Philip Baverstock, que ao que parece era a única música (apesar o "Yellow Submarine" ter estado quase) que fazia sossegar o pequeno ser, deixando de expirar ruidosamente pela boca.
Chegámos a Delhi já tarde. O destino seria, novamente Paharganj, onde iríamos à descoberta de um hotel algures, já que não tínhamos nada marcado. Encontrado o poiso, e já passando da meia-noite a missão seria só uma - comer alguma coisa, já que o hamburger não tinha chegado para nada. Pratos picantes à 1h da manhã são do melhor.

Galeria de Jaipur


Combinámos encontrarmo-nos com o nosso novo condutor e guia numa esquina relativamente afastada do hotel. Já com alguma idade, o senhor pediu-nos que assim fosse sob pena de literalmente apanhar porrada de outros condutores que aguardam às portas do hotel pela indecisão de eventuais clientes. O objectivo dessa manhã e durante as últimas horas que restavam em Jaipur era só um - ir à caça e andar de elefante. Assim foi.
Encontrámos o bicho disponível perto do Jal Mahal (Palácio das Águas), gerido por um bando de jovens que procurava ganhar algum dinheiro com o animal de estimação lá de casa. O passeio, apesar de não ter durado mais do que 15 minutos, deu-nos a sensação de objectivo cumprido e realizado. Estávamos satisfeitos, podíamos seguir a viagem mais tranquilos.
O condutor do autorickshaw, que foi um dos melhores e mais simpáticos que apanhámos durante toda a viagem, com os seus traços de avozinho, pediu-nos que visitássemos uma joalharia sem qualquer compromisso de compra. Não tínhamos nada combinado para fazer e deixamo-nos levar até lá. Depois da visita, o nosso guia-motorista muito grato sugeriu-nos ainda que visitássemos o seu guru. Não se tratava de comprar nada, mas apenas ouvir o que ele tinha para nos dizer, o que na Índia se traduz em enriquecer não a carteira mas o estatuto social deste e dos seus eventuais "poderes".
Os gurus na Índia são mestres espirituais e o seu acompanhamento é condição fundamental para uma boa realização pessoal. Entrámos numa sala/consultório e fomos literalmente atendidos. Sentindo as nossas vibrações e energias do corpo o guru informou-nos sobre futuras doenças e períodos de mudança nos próximos tempos, falou-nos sobre a nossa família e remédios para a nossa personalidade. Enfim, para um descrente como eu, foi uma experiência interessante mais do ponto vista da forma do que ao teor do conteúdo. Não pagámos nada. Seguimos viagem.
A próxima paragem seria Lassiwalla, uma pequena loja no centro de Jaipur, com a fama de vender o melhor lassi da cidade e de toda a Índia. O lassi é uma bebida refrescante, à base de iogurte, adorada tanto pelos indianos como pelos estrangeiros que visitam a Índia. Pode ter vários sabores (tipo iogurte líquido), podendo ser salgado, doce ou batido com frutas. Nesta loja o lassi era realmente mais cremoso e servido nos tradicionais copos indianos de barro, descartáveis.
Passamos pelo hotel e seguimos para o lugar a partir de onde o autocarro partiria. O destino era agora Agra, a terra do Taj Mahal, que entretanto tinha mesmo ganho, no dia anterior e em Lisboa, a categoria de nova maravilha do Mundo. A viagem duraria umas boas horas e só chegámos a Agra já de noite.
Em Agra, o Taj Mahal encontra-se invisível durante a noite, perdido entre o espaço circundante reservado e sem qualquer tipo de iluminação de fachada. Seria, portanto, só de manhã cedo que o iríamos avistar.


Apesar do dia da partida estar a chegar a "passos" largos, guardámos algum do melhor da Índia para o fim - Jaipur e Agra. Os dias passaram a ser bastante mais cheios e vividos.
Tínhamos combinado com o autorickshaw driver do dia anterior, Mr. Lucky, um tour turístico pela cidade durante essa manhã, bem como uma ida, se não fosse muito dispendiosa, a Amber, nas redondezas da cidade.
Começámos o dia cedo, isto é, perdidos no meio de uma grande avenida da cidade, vizinha do hotel, e à procura de um sítio para o pequeno-almoço. Depois de muitas idas e voltas, para cima e para baixo, lá encontrámos a "lanchonete" onde nos tratámos com um pequeno-almoço de luxo - sandes de carne e ovo e um sumo de pacote ranhoso.
Quando voltámos à recepção (o ponto de encontro do tour da manhã), já estávamos atrasados e quem nos esperava já não era o condutor combinado, mas sim um "primo" do Lucky que se tinha disposto a fazer o serviço.
O dia não era normal - era dia07/mês07/ano07. E isso na Índia, terra de espiritualidade mesmo sendo a data bíblica, é um dia de boa sorte. Não só foi o dia em que toda a Índia terminou de votar incessantemente para que o Taj Mahal ganhasse a categoria de Maravilha do Mundo (estimulados pelo forte marketing nos jornais e outdoors). Como também era o melhor dia, dos últimos anos, para um bom casamento. Logo, toda a Jaipur estava hoje concentrada nas centenas... sim centenas... de casamentos que iriam decorrer na cidade por estes dias.
Subimos para o autorickshaw e partimos em viagem, numa condução suficientemente rápida para ser apelidada de insegura, tal como já estávamos habituados. Cruzámos ruas anywhere, isto é em parte desconhecida no tempo e no espaço, polvilhadas por galinhas, porcos e crianças na brincadeira.
A primeira paragem que o nosso guia improvisado nos proporcionou, foi a Gaitor. O espaço já fora da cidade, na estrada para Amber, era composto por pequenas estruturas de mármore branco, concentradas ao longo de um jardim murado. Neste lugar, Sawai Jingh II decidiu instalar a área de cremação da família real Kachhawaha, reinante do reino de Jaipur. Através de um guia impingido pelo nosso mais recente "amigo", provavelmente também da "família", fomos acompanhados por explicações ao longo da visita. Os chhatris (cúpulas) de mármore sobre as plataformas de cremação dos marajás eram sustentados por pilares intensivamente decorados com relevos de cenas religiosas e mitológicas, sendo o cenotáfio mais impressionante o do próprio marajá Jai Singh II - com 20 pilares de mármore. O mais recente foi erguido em 1997, em memória de Jagat Singh, filho único de Sawai Man Singh II e de Gayatri Devi, herdeiro do trono e reconhecido nas ruas e no lugar como bêbado.
Enquanto visitávamos o espaço o nosso condutor, perdido no meio de um telefonema, pergunta-nos se estávamos interessados em ir, ao final do dia, à festa e casamento de um amigo seu. Estranhámos, mas sabíamos que um casamento cheio na Índia era auspicioso e agradava muito à família dos noivos. Concordámos em ir, sabendo que aquela data era mesmo dia de casamentos.
Seguimos viagem para Amber, passando por Jal Mahal (Palácio das Águas) e pelo lago Man Sagar (naquele momento totalmente seco mas só por enquanto). A estrada era protegida por um complexo de fortes ao longo do topo das montanhas, e com o contacto recorrente com alguns camelos.
Ao fim de alguns minutos de "trotinete" a miragem do forte de Amber surgiu camuflada no monte. O Palácio-fortaleza de Amber foi uma cidadela dos reis Kachhawaha até 1727, quando a sua capital passou para Jaipur. No entanto, os governantes seguintes continuaram a vir aqui em ocasiões especiais para receberem a bênção da divindade da família - Shila Devi. A cidadela foi fundada em 1592, por Man Singh I, sobre as ruínas de um antigo forte do século XI, sendo os edifícios acrescentados por Jai Singh I (rei entre 1621-1667) a principal atracção. Protegidas pelo Forte de Jaigarh, as imponentes muralhas do Forte de Amber seguem o relevo do próprio monte.
Durante o caminho o nosso guia informou-nos que havia 3 formas de subir até ao forte: a) a pé, subindo as escadas e ruas íngremes; b) de jipe; e, c) de elefante, forma tradicional e obrigatória para o turista que visita Amber. Respondemos logo - ELEFANTE. Já nos tinha acontecido essa situação mais vezes. Os indianos apresentam-nos várias opções possíveis, sabendo de antemão que só uma é que é possível. Realmente ir de elefante era uma possibilidade, mas hoje era impossível porque estes paquidermes ou estavam alugados para transportar os noivos para os casamentos que se iriam realizar, ou estavam recolhidos àquela hora por causa do calor. Fulminámos o guia com os nossos olhos e subimos a pé até ao forte. À entrada o habitual assédio ambulante do turista, para comprar o belo do souvenir da visita, interrompido por uma lut agressiva, entre dois burros que se mordia, no intervalo do transporte de entulho de uma obra de construção civil. A visita demora algum tempo, apesar da falta de qualquer tipo de sinalética e explicações dos espaços labirínticos que visitámos.
Regressamos até ao centro da cidade velha (pink city), apesar de pelo caminho termos gasto algum tempo a visitar uma loja de produtos da cidade, e que foi a gota de água para despacharmos o guia, já demasiado hiperactivo e chato, combinando uma hora para ele nos apanhar no hotel e irmos para o tal casamento. Almoçámos literalmente numa "tasca indiana", em que nem sequer havia menu em inglês, e fomos roubados com uma conta ao nível do jantar do dia anterior.
Já com horários de abertura apertados, fomos visitar as atracções da cidade velha - Jantar Mantar (observatório astronómico) e o Museu do Palácio da Cidade.
O Jantar Mantar é um dos cinco observatórios construídos por Sawai Singh II (Deli, Ujjain, Mathura e Varanasi são os outros). Tendo sido um delicado astrónomo, Jai Singh manteve-se a par dos estudos mais recentes no mundo e foi largamente inspirado pela obra de Mirza Ulugh Beg, o rei-astrónomo de Samarcanda. Edificado entre 1728 e 1734, o observatório foi descrito como "a mais realista e lógica paisagem de pedra", com os seus 16 instrumentos que fazem lembrar esculturas gigantescas. Alguns dos seus instrumentos ainda são utilizados para previsões meteorológicas, como o dia esperado para a chegada da monção, sua duração e intensidade, e a possibilidade de cheias ou de fome.
Atravessando a rua está o Palácio da Cidade. À entrada encontrámos dois encantadores de serpentes, fazendo uso do poder da sua flauta. O Pálácio é a morada dos reis de Jaipur desde a primeira metade do século XVIII. O amplo complexo é uma magnífica fusão da arquitectura rajpute e mongol, com edifícios públicos abertos e arejados, de estilo mongol, que dão para aposentos particulares. Uma parte do complexo encontra-se aberta ao público, exibindo colecções de pinturas em miniatura, manuscritos, tapetes mongóis, instrumentos musicais, trajos reais, turbantes e armas, fornecendo uma panorâmica introdutória ao principesco passado de Jaipur e do seu fascinante artesanato.
De volta para o hotel encontrámos, finalmente, um bom condutor de autorickshaw. Passámos ao lado do Hawa Mahal ("Palácio do vento"), na altura em obras, e a meio do caminho... finalmente... avistámos um ELEFANTE... o primeiro elefante, na cidade dedicada a estes animais, enfeitado e coloridamente pintado com giz, pronto para um casamento que se avizinhava. Combinámos com o condutor uma caça ao elefante na manhã seguinte.
Já no hotel fizemos um pouco de tempo até à hora combinada para nos irem buscar para o tal casamento de casal indiano a conhecer. À hora marcada, já anoitecia, lá estava o condutor. Digamos que entre nós os dois existia alguma apreensão. Íamos para algures anywhere, ter com pessoas que não conhecíamos de lado nenhum. O risco consciente de podermos vir a "morrer na valeta" era, se bem que já o tinha sido várias vezes de forma inconsciente, bastante provável e elevado. O plano apresentado era irmos de autorickshaw até caso de um amigo e depois seguirmos de carro para a festa de casamento (depois seríamos degolados num descampado... estou a brincar). Lá fomos até casa do amigo. Entrámos numa espécie de joalharia fechada, sem montra, num lugar onde certamente o comerciante não viveria dos impulsos espontâneos dos transeuntes. Seguimos para uma sala e ficámos sentados num sofá, hipoteticamente à espera que o tal amigo chegasse e pudéssemos seguir viagem. Eis que chega um personagem, com cerca de 30 anos, e senta-se no sofá à nossa frente. Diz que já vamos para a festa e que só estamos à espera de mais gente. O ambiente já era de todo muito, muito sinistro. Oferecem-nos chai em copos transparentes, nós primeiro recusamos, mas somos obrigados por cortesia a aceitar (era a solução que nos faria adormecer para a posterior comercialização dos nossos órgãos vitais no mercado asiático). Acho que só comecei a beber alguns golos pequenos, depois de perceber que o Philip não tinha caído de imediato para o lado. Entretanto a personagem que nos confrontava iniciou um diálogo rico sobre Portugal, questionando as nossas vidas, o que fazíamos e de onde éramos. Contrariamente ao normal dos indianos, o nosso interlocutor mafioso sabia ditar vários locais de Portugal como "Leiria" ou mesmo "Costa da Caparica"; e mais, não se referindo como seria previsível a Cristiano Ronaldo ou Figo, a personalidade a associar ao nome de Portugal foi, desta vez, Abu Salem, terrorista responsável pelos vários atentados bombistas em Bombaim, preso em Lisboa, condenado à morte e provocador de um longo impasse diplomático entre os dois países. Já estávamos sentados no sofá há mais de uma hora. Cedo percebemos que se tratava muito provavelmente de uma manobra de burla, baseada numa eventual exportação lucrativa de pedras preciosas para a Europa (muito comum naquelas paragens). Burla ou não, o primeiro passo era sair dali o mais delicadamente possível e mandar qualquer casamento para as ortigas e má sorte. Delicadamente dizemos que íamos jantar primeiro e que já voltaríamos então. Saímos e fomos reencaminhados de volta para o hotel, onde informámos o condutor que afinal já não sairíamos dali, nem vivos nem mortos, durante aquele dia. Um dos filme/episódios da viagem, talvez um dia, com mais tempo, melhor explicado.
Jantámos no hotel, mas não pudemos deixar de sair para ir beber umas Kingfishers. Andando pelas ruas à descoberta, encontrámos um bar de revenda de bebidas alcoólicas, gerido por um grupo de irmãos sikhs, num espaço literalmente partilhado com uma loja de peças e parafusos automóveis. E ali, numa cave e no meio de prateleiras carregadas de peças metálicas oleosas, bebemos umas garrafas de cerveja até regressarmos ao hotel.

Chegada a manhã, efectivamente, regressámos ao restaurante onde tínhamos jantado na noite anterior e, para além de comermos aí o pequeno-almoço, o que é sempre bom para o negócio, pagámos o que tínhamos em dívida da noite anterior. Despedimo-nos do Hotel Diamond e partimos de autocarro até Ajmer, de onde seguimos noutro, substancialmente melhor em qualidade de lugares, até Jaipur, a nossa próxima etapa.
Jaipur é umas das cidades do triângulo turístico dourado da Índia (Delhi, Jaipur e Agra) consistindo na sua parte histórica, num labirinto de fascinantes bazares, sumptuosos palácios e locais históricos, também chamada de "Cidade Rosa" devido à cor avermelhada dos seus edifícios. Aqui, a tradição e modernidade coexistem: as ruas vibram com camelos e motorizadas, e homens de turbante cruzam-se com rapazes de jeans. Rodeado por uma muralha com sete portas, a parte antiga de Jaipur está planeada segundo um traçado geométrico de ruas e praças, paralelas e perpendiculares, raro no que vimos no resto da Índia.
Na estação de autocarros, a rotina era a do costume: primeiro, ter já escolhido de antemão, via Lonely Planet, o lugar onde íamos ficar alojados; segundo, ter olho para um condutor de autorickshaw honesto e eficiente. Quem nos calhou, por esta vez, foi um indivíduo dos seus cerca de 25-30 anos, que se apresentara com o nome de Lucky (sorte a dele, e talvez a nossa). A partir de Jaipur era recorrente que os condutores nos mostrassem um caderno de recomendações assinadas por turistas e com as suas observações - várias nacionalidades e línguas a atestarem a qualidade dos passeios fornecidos.
O tempo estava qianda quente em Jaipur (nós sempre um dia à frente da monção), e ficámos alojados no Evergreen hotel, que nos prometia uma apetecida piscina. O Hotel não era mau, mas a piscina, essa, estava em obras.
Reservámos o resto do dia, mais uma vez, para descansar, ler, Internet (com um horário estranho aliás), e breve estadia na cafetaria. Já não estávamos para grandes correrias para ver tudo e mais alguma coisa que houvesse, como nos primeiros dias. Combinámos uma visita pela cidade com o Lucky, o motorista, na manhã seguinte pelas 09h00.
Jantámos num dos restaurantes que se pode apelidar de "luxo" de Jaipur - o 4 Secrets, o que realmente valeu a pena. Fomos de ciclerickshaw (espécie de bicicleta em que somos a carga passageira) e a refeição foi óptima, ao nível das melhores que comemos na Índia. Ao longo da viagem, para grande vergonha minha, como já expliquei antes, os meus olhos rapidamente se habituaram à pobreza - à pobreza na rua, à pobreza dos mendigos, à pobreza nos comboios, à pobreza das crianças, a pobreza constante de gente vestida de farrapos rotos, deitada no chão à espera que os ossos furem a pele de fome. Um cenário de choque é certo mas que vergonhosamente já não me afligia. O meu cérebro transformara aquelas imagens em ficção televisiva, como estamos frequentemente formatados para fazer. Seguia o meu caminho. Depois de um verdadeiro luxo de refeição, o nosso condutor de ciclerickshaw, aparentando os seus 50/60 anos de idade, mas certamente com menos, tinha esperado pelo fim do banquete. Provavelmente achou que não ia ter mais trabalho naquele dia e que a espera por mais um serviço valia o esforço. Vestia-se literalmente à Gandhi, de túnica branca e aguentando o frio que já se sentia em Jaipur. O regresso a casa, em que as pernas do carregador já tremiam do peso, declive e esforço, motivou um breve baixar à terra, apanhando-nos de surpresa com um forte complexo de exploração, impotência e imoralidade. Basicamente por todo aquele esforço ele iria ganhar um pouco nada do que 40 cêntimos, sendo que nós naquele momento tínhamos a oportunidade de fazer o mês daquele homem que fazia da sua bicicleta o seu abrigo nocturno. Demos uma "boa" gorjeta, mas pensando muito bem, não demos nada.

Galeria de Pushkar


A chuva perseguiu-nos de Udaipur a Ajmer. Largados no meio de uma estrada da cidade, algures entre o desconhecido e o não sei onde estou, apanhámos um auto-rickshaw até à gare de autocarros. Daí pagámos a enormidade de 8 rupias (cerca de 15 cêntimos) para a nossa viagem de 45 minutos, em autocarro público "topo de gama", até ao sítio de Pushkar, no meio do deserto de Thar, um dos maiores do Mundo.
O autocarro subiu um pouco em altitude até nos depararmos com um autêntico deserto, com as suas dunas de areia e paisagem árida pontuada por alguns camelos (mais um exemplo de incredible india). São poucos os dias em que chove por estas bandas, mas nós, com a nossa bela sorte, calhámos precisamente num desses. Portanto, chovia torrencialmente em pleno deserto. À partida o autocarro teria como última paragem estabelecida (já que podem existir outras) Pushkar. Pelo menos era o que nós pensávamos até que, desconfiados, perguntámos onde era, se faltava muito ou se já tínhamos passado. Efectivamente Pushkar já lá ia e nós saímos logo ali, no meio de um lugar certamente com menos de 10 casas. Informados na banca de géneros do sítio que não nos tínhamos afastado muito (era pouco menos de... 2km até ao destino). Lá fomos de mochila às costas, a pé, à chuva, no meio de uma estrada no meio do deserto. Chegaríamos depois de 30 minutos, mais coisa menos coisa.
Perdidos completamente, sem saber para que lado era o norte, o hotel, o lago sagrado ou que quer que fosse. Chovia. Apanhámos um transporte sui generis para nos salvar da situação e da chuva. Basicamente tratava-se de uma espécie de carrinho de mão de madeira, com um tabuleiro plano, puxado por um homem indiano (diga-se, não robusto). Sentados no tabuleiro do carrinho de cargas, ele lá nos puxou em passo de corrida até ao Diamond Hotel. Chovia. Encontrado o porto de abrigo (substancialmente mais caro do que adiantava o Lonely Planet) achámos que não tínhamos escolha. Chovia. Entrámos e fizemos o check-in.
Pousada de deserto, os poucos quartos que tinha davam directamente para um pátio a céu aberto, transformado agora em pluvium indiano. Tal era a quantidade de chuva, neste cenário do dilúvio, que a rua se transformou num rio, e o pátio, onde estava a cozinha, não tardou a se inundar com uma cota de 15-20 cm de água. Ainda ajudámos na operação de protecção civil caseira de ir buscar à rua tijolos de argila, para fazer os devidos diques improvisados junto à porta principal e ao redor do pátio. Ainda varremos, e com um balde tirámos a água para fora do barco. Uma aventura, numa pousada sui generis, diga-se com um forte lema implícito de "legalize it", que nos surpreendeu por serem 8 da manhã. A dona do hotel era uma italiana, que sabia falar espanhol, logo meio português, e que tinha ido para a Índia como guia e intérprete, e ali se tinha instalado para gerir aquela pousada. Vivia lá sozinha com a sua filha.
Pushkar é uma pacífica vila de peregrinação pontilhada por um grande lago e 400 templos. Recebeu o nome de pushpa (flor) e kar (mão), e, segundo a lenda, os seus lagos terão sido criados a partir das pétalas de uma flor de lótus, que caíram das mãos divinas de Brama, o Criador. Um labirinto de ruas ramifica-se a partir da principal, Sadar Bazaar Rd. É uma pequena e cativante cidade turística, como uma bonita miragem no limite do deserto, de que sobressai a cor azul e branca dos ghats para o banho, dos templos, das cúpulas bolbosas e de edifícios cercados que se amontoam à volta do seu lago sagrado.
Os sacerdotes, alguns genuínos, outros não, aproximam-se dos turistas para lhe oferecer um puja (oração) com a qual recebem um "passaporte de Pushkar" (uma fita vermelha e amarela à volta do pulso). Foi essa a primeira coisa que fomos fazer assim que a chuva parou. Trata-se de uma oração, num dos ghats à beira do lago (idealmente com o corpo banhado), onde são evocados vários deuses. Oferece-se durante a oração, que nos era ditada e nós repetíamos, várias coisas como pétalas ou um coco. Fazem-se referências a vários deuses e aos nomes das pessoas ligadas a nós e que queremos que também recebam a graça divina. Basicamente é uma oração que se divide entre: a Invocação dos deuses (Bodhan, Aamantran/Aavahan); o Ofertório; a Oração; a Conclusão (Aarti) e a Imersão (Visarjan). Saímos de lá com alguma paz, uma pulseira vermelha, e uma mega pinta na testa.
À volta do lago sagrado não é permitido fotografar, o que nós, desrespeitosos ocidentais como somos, o fizémos. Demos a volta a pé ao lago, o que se faz em menos de 1 hora, e fomos tomar o pequeno-almoço. à volta para a pousada visitámos ainda o Templo de Brama, um dos poucos templos indianos dedicados a este deus, conhecido por ter sido amaldiçoado pela sua esposa Savitri, quando, no desconhecimento e na ausência dela, convidou Gayatri, uma rapariga tribal, para substituir a esposa num importante ritual.
Almoçámos e passámos a tarde na pousada a ler e a dormir (com algumas incursões ao posto de Internet mais próximo). Uma tarde de descanso bem merecida e desejada depois destes dias em permanente viagem, importunada por um ataque de macacos à pousada, afugentados com o tiro certeiro de algumas pedras.
Ao jantar na ausência de troco para as nossas rupias, ouvimos um "não paguem agora e amanhã, quando voltarem para o pequeno-almoço, acertamos as contas". Insólito Índia.

Galeria de Udaipur


O dia ainda ia ser passado todo em Udaipur. E como estávamos peritos em check-outs' atribulados, esta vez não foi excepção. De véspera adiantaram-nos as 09h00 da manhã como hora de saída. Depois de mal acordados e de arrumadas as tralhas que já se acumulavam depois de 33 dias de viagem, vem a filha do Sr. Soni dizer que se quiséssemos podíamos ficar a dormir durante mais tempo. Infelizes e agradecidos, apenas transbordámos as nossas mochilas para um quarto da casa mais pequeno e saímos.
O dia estava reservado para uma incursão na culinária da região. Na véspera havíamos feito uma inscrição num breve workshop de cozinha indiana, pensando nisso, optámos por um almoço limitado ao básico, e que deixasse via verde para comermos tudo o que tínhamos de fazer com as nossas mão durante a tarde.
A sala de aulas era a cozinha do Sunrise Restaurant e a nossa mestre a Sr.ª Sashi.
Começou ela por se apresentar, contando o seu percurso de vida até chegar àquela situação de professora. Tinha 3 filhos e o marido havia sido assassinado anos antes, quando ela tinha 30 anos. A causa do crime tinha girado à volta de assuntos de rupias e o criminoso estava, naquele momento, já preso. A partir de então, o restaurante ficara a cargo do genro da Sashi, ficando ela a tomar conta da cozinha. Contou, porém e ainda, a história do seu luto, em que deixara de comer e passara os dias a chorar, virada contra uma parede, por uma vida perdida. Se para uma mulher, em qualquer parte do Mundo, a morte inesperada do marido é um choque, para a Sashi é ainda mais. Porquê? A Sashi é da casta dos Brâmanes. E, apesar de ainda ser jovem, tal condição impede-a de voltar a casar. [Já agora há um filme muito interessante sobre isto - "Water" de Deepa Mehta, com edição portuguesa em DVD].
O sistema de castas (varnas) surgiu na Índia por volta do séc. VIII a.C., sendo uma herança dos povos Arianos. A princípio baseava-se na ocupação dos indivíduos, mas foi-se tornando hereditário e gradualmente mais rígido. No topo estavam os brâmanes, ou sacerdotes, seguidos dos kshatriyas (senhores e guerreiros). Abaixo destes estavam os vaishyas (camponeses e mercadores) e os shudras (servos e trabalhadores). Abaixo destas castas estão ainda os dalit (outrora chamados de "intocáveis"). Isto pode ter correspondido a uma organização social adequada na época, mas degenerou num sistema de discriminação hereditária que, apesar de banido por lei, continua a influenciar a sociedade, como o caso da Sashi evidenciava claramente.
A Sashi, no entanto, decidiu continuar a viver. Começou por limpar casas, facto que referiu ser muito vergonhoso para a sua condição social e que a levaria, mais tarde, a aprender inglês, sozinha, através do estudo e da leitura de livros e do contacto com os turistas estrangeiros de Udaipur. Reabriu o restaurante com ajuda do genro, e aceitou o desafio dos filhos para dar aulas de cozinha aos turistas, aumentando os rendimentos da casa.
Depois desta introdução à vida de uma indiana, ali estávamos nós, prontos para cozinhar: chai, nam, pakora, etc...
Com a barriga apinhada de comida lá fomos buscar as nossas malas ao hotel. Antes, porém, acabámos dentro de um primeiro andar em casa de uma teenager indiana. Foi daqueles acontecimentos de viagem que nem me apercebi como aconteceu, estávamos a ir para o hotel e, segundos depois, estávamos dentro de uma casa particular a ver postais pintados à mão para eventual compra, vá-se lá saber porquê. Despedimo-nos educadamente e fomos apanhar o autocarro para Ajmer. Para variar, saímos de Udaipur a fugir da monção. Na altura, chovia dentro e fora do autocarro.


Começámos a manhã a tomar o pequeno-almoço na German Bakery do dia anterior. Enquanto comíamos os nossos cereais e respectivo acompanhamento, aconteceu um episódio surpreendente. De forma resumida, estávamos a comer na esplanada do estabelecimento. Um cão, com os seus ossos de fome a furar a pele, pára na estrada e fica a olhar para o nosso banquete matinal, à espera que alguma coisa caísse para o seu proveito. Constrangedor. Entretanto, uma criança indiana com os seus seis anos aproxima-se de nós, ao lado do cão, e pede-nos alguma coisa para comer. Só esse gesto já nos estava a obrigar a parar a refeição e vomitar tudo com o sentimento de culpa subjacente. O que aconteceu? Em câmara lenta, muito devagar, vendo a menina pedindo por comida e não gostando da concorrência, o cão olha para ela, olha para a perna, abre a boca e... imaginem o resto. A menina gritou e desatou a correr pela rua acima. O cão recebe de recompensa uma vassourada valente do empregado do estabelecimento que até galopou de lado pela rua abaixo. Nós, suspensos com a boca aberta e a colher a meio caminho, observado o acontecimento, continuámos a comer.
É de ter vergonha, muita vergonha, é certo. Eu tenho vergonha de não ter tido mais compaixão, de não me ter obrigado a mais acção. Mas depois de um mês na Índia, os meus padrões de solidariedade caíram para níveis que eu nunca pensaria serem possíveis. Era já um hábito assistir a manifestações de grande pobreza, e a sensibilidade social tinha-se perdido com o tempo e o andar da viagem. Era normal. Resignado, já não sentia qualquer tipo de choque.
Depois do pequeno-almoço, fomos visitar o Palácio da Cidade de Udaipur.
Udaipur era a capital do reino Rajput de Mewar, um dos reinos míticos dos marajás da Índia, tolerados pelo Império britânico. Com a independência em 1947, Rajputana decidiu integrar a nova nação indiana, tendo-se tornado no estado do Rajastão em 1950. Aos marajás foram dados estatutos pessoais especiais e uma dotação orçamental própria, que duraria até ao governo de Indira Gandhi. Perdendo o seu poder, mas mantendo a maioria das suas propriedades, os Marajás transformaram a maioria dos seus palácios em destinos turísticos ou hotéis de luxo, mantendo as suas riquezas e algum estatuto protocolar.
O Palácio da Cidade de Udaipur, na margem oriental do lago Pichola, é uma fascinante combinação de arquitectura militar rajput e técnicas decorativas mongóis. Com uma severa fachada em fortaleza, é encimada por graciosas varandas, cúpulas e torres. Trata-se do maior complexo palaciano de todo o Rajastão, ocupando uma área de 2 hectares, composto por vários palácios menores, construídos e ampliados por 22 maharanas (marajás) entre os séculos XVI e XX. Em grande parte está ocupado por um museu, mas certas áreas estão destinadas a diversos hotéis de luxo. Perde-se uma manhã na visita ao palácio, e vale a pena.
As principais cidades do Rajastão, como Udaipur, estão associadas à criação e de alguns animais da região. Assim: Jaisalmer é a cidade dos camelos; Jaipur, a cidade dos elefantes; e, Udaipur, a cidade dos cavalos. Essa associação é visível no próprio espírito de cada uma destas localidades.
Almoçámos na parte antiga da cidade, cujo núcleo não é muito grande. E durante o almoço, não nos safámos a assistir ao filme 007 Octopussy, filmado nesta cidade em 1982 e desde o dia em que foi editado em vídeo, patente em sessões contínuas na maioria dos bares e restaurantes da cidade.
Parece que o filme de James Bond foi mesmo um grande acontecimento. Depois do almoço, enquanto visitávamos o templo Jagdish Mandir, dedicado essencialmente ao deus Vixnu, o nosso guia turístico improvisado, interrompeu toda a sua explicação sobre os baixos-relevos nas paredes de pedra do templo, alusivos ao kama sutra, a lutas entre elefantes e a cavalos, para afirmar solenemente enquanto apontava para o chão: "foi aqui, neste mesmo lugar, que eu estive a falar com o Roger Moore". Para variar, ele, como toda a cidade, participou como figurante no dito filme.
A tarde foi reservada ao descanso e Internet. Ao pôr-do-sol fomos até Haveli Bagdore ki, próximo da Gangaur Ghat, onde assistimos a um espectáculo de dança folclórica indiana e de marionetas tradicionais de Udaipur, de que se destacou a danças em cima de vidros partidos ao mesmo tempo em que se empilhavam 12 bilhas de água na cabeça.
Jantámos na pousada e de noite, depois de uma volta pela cidade de autorickshaw, ficámos por um dos bares do Palácio da Cidade a fumar Shisha, enquanto a monção chegava a Udaipur chuviscando.


Chegámos a Ahmedabad por volta das 6 da manhã. Claro está - francamente mal dormidos e com o comboio para Udaipur perdido há já algumas horas. Não foi por isso que demorámos muito mais tempo na cidade. Chegados à estação foi só o tempo de apanhar um autorickshaw para a estação de autocarros e seguir daí, e de imediato, para Udaipur. Tudo em meia hora. A viagem de autocarro demorou toda a manhã, com paragem para almoço, até chegarmos ao destino.
Udaipur é uma das cidades mais românticas da Índia. Em traços gerais a sua imagem é caracterizada por uma grande massa de água, o lago Pichola, de 4km de comprimento e 3 km de largura, rodeado por uma variedade de edifícios em mármore branco e salpicada com pequenas ilhas, transformadas em palácios com o mesmo nível de grandeza. Ladeiam ainda as margens do lago, que seca por completo em alguns anos, havelis, ghats para o banho, dhobi-ghats para lavar roupa e alguns templos.
Chegámos a Udaipur um pouco depois da hora de almoço. Durante a viagem encetámos contactos com um puto indiano, que procurava saber tudo um pouco sobre Portugal e a Europa e conseguiu arrancar o número de telefone do Philip, mas que nos valeu uma boa negociação de preços à chegada, com o condutor do autorickshaw que nos levaria até ao hotel.
Ficámos na Lake Corner Soni Ghest House, gerida pelo Mr. Soni e pela família, uma casa pitoresca com dois pisos e com os quartos a dar para um pátio interior a céu aberto. No topo da casa existia ainda um terraço com vista para o lago. As monções, felizmente, ainda não tinham chegado à região.
Na casa vizinha ao nosso alojamento morava um indiano deficiente que nos convidou, logo à primeira saída à rua, para visitarmos a casa dele, as suas fotografias, e daí incessantemente para jantarmos lá em casa, um desejo que fomos recusando até nos irmos embora.
Depois de almoçarmos numa German Bakery (os nomes que arranjam para um sítio agradável de estar) fomos fazer um breve cruzeiro de barco pelo lago, digno de uns bons disparos fotográficos.
Existem duas ilhas no lago: Jagniwas e Jagmandir. Em Jag Niwas, assenta o Lake Palace Hotel, um palácio construído pelo marajá Jagat Sigh II em 1754 e hoje um dos hotéis mais luxuosos do mundo, utilizado frequentemente como cenário de diversos filmes. Na ilha de Jag Mandir o marajá Karan Singh iniciou a construção de outro palácio. Por mais dinheiro podíamos, no final do cruzeiro, visitar essa ilha, mas a contenção financeira não aconselhou a visita.
Jantámos no Sashi Sunrise Restaurant, interessante por ter na ementa a estimulante bebida - Bhang Lassi .


Um pouco antes das 06h00 o nosso comboio parou e dava ares que tinha chegado ao destino. Onde estávamos? Perguntam vocês. Onde estávamos? Perguntámos na altura nós. Mumbai não era de certeza. Basicamente tratava-se de uma estação de comboios em obras, no meio de nenhures, com entulho espalhado pela estação, um autêntico cenário de guerra, com o sol a nascer, lembrando-me aqueles cenários dos jogos de acção para o computador, onde andamos a matar ET's com um leque variado de armas. Ninguém sabia nada. Nem estrangeiros, nem nacionais. A opção da maioria das pessoas, que estava a acordar no momento, era apanhar o metropolitano até à cidade. Quanto tempo demorava? Não sabíamos. Para que lado era? Sorte a nossa ser a estação terminal, só havendo um sentido possível. Viajámos de metro até Mumbai sem bilhete. Diga-se que era um "metro de superfície", tipo comboio da linha de cascais, as carruagens estavam preparadas para as grandes horas de ponto, na medida em que simplesmente não tinham portas.
Chegados a Mumbai, ao elegante Victoria Terminus, apanhámos um táxi directamente para a Central Station, onde tínhamos os bilhetes de comboio já comprados para Ahmedabad, às 15h00. Deixámos as malas num depósito sombrio da estação, que nos aconselhava a não deixar comida nas malas por causa dos ratos. E partimos para o pequeno almoço - chai e bolachas.
O objectivo, naquela manhã que ainda tínhamos em Mumbai, era visitar a Casa-Museu de Gandhi, ou melhor, a Mani Bhavan Gandhi Sangrahalaya. Trata-se da casa onde Mahatma Gandhi viveu de 1917 e 1934, sendo daqui que iniciou e partiu para as suas campanhas de desobediência civil ao Império britânico. Agora o edifício está transformado em biblioteca especializada e museu, contando o percurso de Mahatma e preservando o seu quarto, fotografias, e objectos pessoais.
Assim que demos por terminada a nossa visita, começou a chover. Vamos dar ênfase. Começou a chover muito. Começou a chover a sério e, até sairmos de Mumbai à tarde, não parou. As ruas transformaram-se em autênticos rios. E sim, molhámos bastante os nossos pezinhos até encontrar um táxi livre, que nos pusesse em fuga até à estação de comboios, de onde não voltaríamos a sair. A visita à cidade ficaria por aí.
Almoçámos finalmente, depois de várias insistências, no McDonalds's da estação. Mais um viva! para a globalização. Realmente Mumbai era uma cidade quase de primeiro mundo. Mas, apesar do desenvolvimento aparente, não pudemos deixar de reparar num pormenor, enquanto almoçávamos. Um casal de namorados adolescentes, sentados numa mesa ao nosso lado, ensaiavam uma cena ao estilo de namoro português do século XIX, mas no McDonald's, lá está. Embora sozinhos e sem presença da família, o que já era inédito em comparação com o resto da Índia, passaram mais de uma hora naquela linha de limite que antecede qualquer contacto físico entre namorados. Mas masoquistas prolongavam esse período ad eternum, ora avançando pouco, ora se afastando pouco. No máximo dos máximos, com as caras a poucos centímetros, davam simplesmente as mãos debaixo da mesa. Munidos do nosso espírito voyeur, ficámos o resto do almoço a apostar quando é que finalmente ocorreria algum contacto. Não aconteceu na meia hora seguinte e fomos desiludidos apanhar o comboio.
Como a previsão era que a viagem durasse poucas mais do que seis horas (à volta das 21h00 estaríamos em Ahmemabad) escolhemos viajar em 2.ª classe. Sempre tínhamos viajado em classe sleeper, o que implicava uma carruagem com várias paredes divisórias, onde estavam pregadas 3 camas em beliche. A carruagem de 2.ª classe assemelha-se a uma normal da linha de cascais nos anos 70, acrescida do facto de, onde no ocidente se sentam 2 pessoas, se sentarem 3. O volume das conversas era portanto alto, com uma carruagem totalmente lotada de indianos (poucos ou mais nenhum estrangeiro viaja em 2.ª classe).
Já há algum tempo não gozávamos de um azar de viagem, não que tivéssemos saudades mas ele veio a acontecer então. Ao que parece, dado o volume substancial das chuvas que estavam a acontecer naquele momento, parte da linha de comboio em que seguíamos simplesmente desapareceu num buraco. Parado o comboio ficámos ali até às 02h00, cerca de 6 horas parados, à noite, à chuva, em 2.ª classe. Tanto tempo deu para sermos logo alvo da curiosidade indiana. Em pouco mais de um minuto já a minha máquina fotográfica circulava na vizinhança com as fotos em slideshow, já estávamos a jantar comida da vizinhança, e já estávamos a contar toda a nossa vida em poucos minutos. Houve mesmo espaço para um pequeno e tenso impasse diplomático, em que a conversação literalmente parou e gerou o silêncio, quando o Philip, inspirado nos nomes indianos que estava a aprender no romance que lia, se atreveu a chamar determinado nome, cujo sentido benéfico ou pejorativo não estava seguro, a uma das crianças que partilhava o nosso espaço. O ambiente retomou a normalidade momentos mais tarde, com o meu mp3 e a música dos Gift a retomarem o contacto (já houve alturas em que um espelho bastaria).
O atraso do comboio foi de cerca de 9 horas. Amaldiçoando o facto de não termos escolhido uma classe que nos permitisse ter uma noite mais ou menos bem dormida - pelo menos deitados e sem que uma goteira de água no tecto nos fizesse vestir o impermeável para adormecer breves minutos.

Galeria de Goa


Estávamos novamente de partida, e a viagem a partir de agora era já "de regresso a casa". Tínhamos chegado ao ponto mais longe, agora era subir até Delhi e depois voar para Lisboa. 30 dias de viagem já cansam. Escrever este relato também. Mas valeu, vale e valerá sempre a pena... viajar a pé ou no papel.
Acordámos com o responsável pelo quarto a bater à porta. O check-out era, por auto-recreação dele e sem pré-aviso, às 09h00 - madrugada portanto. Atarefados, lá nos despachámos a arrumar as coisas nas mochilas a contra-gosto. Como o nosso comboio era só às 14h00, perguntámos se era possível guardar as nossas mochilas nalgum lugar da "pousada", enquanto dávamos umas últimas voltas durante o tempo da manhã que restava. Resposta... não. Má vontade. Para além disso, o quarto afinal seria um pouco mais caro do que havia sido acordado, e já me falha a memória da razão porquê.
Seguimos, com as mochilas às costas, para tomar o pequeno-almoço, num café ali perto. Com um aspecto igual a um café normal português, ficámos por lá a ler e a escrever, até por volta das 11h00. Apanhámos então um autocarro para Velha Goa. E já que tínhamos tempo, não me queria ir embora sem visitar o Museu, que tinha estado fechado no dia anterior. Também isso valeu a pena. Visto isso, o caminho agora passava por apanharmos um autorickshaw para a estação. Faltava cerca de hora e meia para a partida. Chantageados psicologicamente com o filho bebé que precisava de um berço, o motorista lá nos convenceu a passarmos por uma loja a caminho da estação. Afinal, tínhamos tempo. A loja era do tipo da visitada em Delhi - produtos para turista a preços de luxo ocidental. Seguimos viagem, o motorista lá ganhou o talão que ao fim de tantos lhe dava direito ao prémio, alegadamente para a criança.
Já no comboio, foi atacar os veg burgers e esperar pela chegada a Mumbai.


De manhã o Philip acordou doente, amaldiçoando qualquer coisa como as pizzas do Domino's e a cerveja Kingfisher. Eu estava decidido ir visitar nessa manhã Velha-Goa. O Philip, que já tinha visitado com os pais, meses antes, não estava propriamente disposto a regressar ao lugar e a passar a manhã a visitar, isso... igrejas. Meti-me a caminho sozinho, abandonando-o na convalescença. Lembrei-me que, por mero acaso, tinha-me esquecido da máquina fotográfica dele no cyber café da noite anterior. Com sorte, alguma ou bastante digamos, recuperei-a no mesmo lugar onde a tinha deixado e apanhei de imediato um autorickshaw para o destino.
Velha Goa, ou Goa Dourada como ficou conhecida em Portugal, era no século XVI uma vasta cidade com 300 000 habitantes - mais do que Lisboa ou Londres. Os seus edifícios eram tão belos e apreciados pelos visitantes que se dizia "Quem já viu Goa não precisa de ver Lisboa". Hoje, não passa mais do que um conjunto de catedrais, igrejas e mosteiros, sem mais casas ou população. Surpreendente o contraste de descrições. Em meados do século XVIII, uma série de epidemias abateu-se sobre a região, o que, aliado ao assoreamento do rio Mandovi, levou o vice-rei a transferir a sua residência para Panjim transformando a localidade na Nova Goa. Em Velha Goa seguiu-se um profundo declínio que provocou o gradual abandono do local, estando hoje praticamente deserta. Apesar de tudo isso as marcas do passado foram uma boa herança que sobrou, e que constituem agora um património português, classificado pela UNESCO.
Visitei tudo o que havia para visitar, destacando-se claramente a Sé Catedral e a Basílica do Bom Jesus, a primeira conhecida por ser a maior igreja da Ásia e a última venerada por guardar os restos mortais de São Francisco Xavier, Apóstolo do Oriente. Bati também numa manhã mais 9 igrejas/conventos. Estava ainda na expectativa de visitar ainda o Museu Arqueológico de Goa, que não só preserva as estátuas de Afonso de Albuquerque e de Luís de Camões, retiradas das praças públicas, com a anexação ao território indiano, mas também, a galeria de retratos completa de todos os vice-reis e governadores da Índia (60 pinturas). Para minha sorte, estava fechado à sexta.
À volta não me deixei enganar e por 12 rupias (alguma coisa como 20 cêntimos) apanhei um "autocarro" de regresso à Nova Goa - Panjim.
Não almoçámos nada de especial e, pouco depois de chegar, fomos até ao terminal apanhar um autocarro que passasse por Forte Aguada ou Calangute - zona de praias e turismo. Elemento a considerar, exposto este cenário, estávamos em pleno período de monções e estava a chover torrencialmente. Logo, não soube o que era Goa em época alta, o que é mais ou menos como ir ao Algarve em pleno Janeiro - engraçado, sofrível, mas não realista.
Depois de visitarmos a Fortaleza de Aguada, o que deu para o Philip se relembrar de boas férias passadas, e para darmos bom uso aos chapéus-de-chuva comprados em Darjeeling, (com cores e padrões tipicamente orientais), fomos ver a praia em Calangute, que diga-se (noutras épocas, lá está) foi o centro de atracção para os hippies do final dos anos 60 e 70, que ali faziam as suas raves míticas. O tempo chuvoso trouxe um pouco de desilusão, mas parando a chuva um pouco deu até para pisar a areia, seguindo mais uma cambada de famílias indianas que ali estava a ver... o mar (da Arábia). À entrada da praia, um cartaz alertava para aquilo que não se podia fazer. Seria um cartaz normal não fosse entre os vários avisos, como: "do not spit in public areas", "do not litter this area", ou "do not smoke in public area"; acrescentar um altamente insólito aviso - "do not abuse children", rematado com dois pares de olhos desenhados, ameaçadores e de sobrancelha franzida, e mais um "you are being watched".
O plano era jantarmos peixe... sim, peixe... que não comíamos já lá ia para um mês - mais concretamente, marisco ao preço da chuva. E depois passar a noite numa dos bares/discotecas do sítio. Como aquilo estava mesmo para o morto, assim como o Philip que continuava a vegetar com a sua doença, decidimos voltar para Panjim.
Jantámos no Hotel Venite - altamente recomendável para quem vá a Panjim, pela decoração, ambiente e comida. Curiosamente a refeição foi acompanhada por sons exóticos para a região como: João Afonso, Tribalistas ou Madredeus, em CD's adquiridos pela Internet, como tivemos de averiguar, e por um goês que nem sabia falar português.


Coincidência das coincidências. A minha mãe faz anos neste dia (Parabéns!). A mãe do Philip, que não é contudo a minha, também. Só nos apercebemos disso durante a viagem. Assim que chegámos a Goa, por volta das 10h30, telefonámos para as respectivas progenitoras a desejar um grande e feliz dia, mesmo que longe de nós. A viagem foi excelente. Aliás o serviço de comboios entre Mumbai e Goa foi, sem dúvida, o melhor serviço que apanhámos. A comida abundante era excelente e ainda hoje me faz salivar pelo veg burger do serviço (tal era a fome e a gula que comi 2 de cada vez). Ao longo da viagem tivemos a companhia de um viajante neozelandês, que à semelhança de tantos outros, já tinha estado e iria estar numa data de sítios distantes e remotos, como se a vida dele fosse apenas essa. Uma das minhas surpresas na viagem foi mesmo essa - a quantidade de estrangeiros que se apanham a viajar só por viajar, e a viajar por muito tempo. Portugueses, nunca.
Chegámos a um dos lugares do antigo império. Apanhámos um auto-rickshaw para Panjim e aí iniciámos as buscas por um quarto. Os tempos de abundância já tinham passado, e achámos o primeiro hotel bastante caro. Passámos para o segundo e o mesmo juízo - caro.
Aliás neste segundo, o Afonsos Hotel, passou-se a coisa mais gratificante (se é que é esta a palavra adequada) de ouvirmos falar pela primeira vez português em Goa, designadamente pela gerente do hotel que, apercebendo-se da nossa língua, entrou logo em conversa coloquial perfeita com os possíveis hóspedes. Os goeses falam como os brasileiros quando tentam falar com pronúncia portuguesa. E falam geralmente bem. A princípio podíamos pensar que se tratava de um caso isolado, mas ali na zona das Fontainhas, a vizinhança falava português entre ela. Às vezes um português estranho, mas português.
Vagueando um pouco, acabámos por encontrar um quarto "à partida" em conta mas que, mais tarde, se viria a revelar igualmente caro. Azares de viajante.
Almoçámos e fomos fazer o walking tour do Lonely Planet para a cidade, como já era habitual. Panaji (ou Panjim) é a capital de Goa e fica na foz do rio Mandovi. Antigo porto dos sultões Adil Shahi de Bijapur, tornou-se um arsenal e base militar após a chegada dos Portugueses em 1510. Em 1759, depois de se terem declarado várias epidemias em Velha-Goa, o vice-rei viu-se obrigado a transferir a sua residência para aqui. No entanto, só em 1843 é que a cidade se tornou oficialmente capital dos territórios portugueses na Índia. O edifício de maior relevo, além do Secretariado (típico edifício colonial), é a Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. O Philip apesar de entrar com curiosidade constrangedora em tudo o que é templo hindu tem algum preconceito com as igrejas católicas, que apelida de "todas iguais", como se os outros não o fossem no género. Percorremos a pé um caminho que não era nada de especial. Aliás o walking tour era, digamos, fraquinho. A cidade, não tendo muito para oferecer do ponto de vista de mega atracções turísticas, inspira um ambiente bastante calmo e acolhedor, que vale só pelas casas coloniais pequenas e coloridas, de um ou dois andares, de telha vermelha e com as suas varandas de madeira, reminiscente do saudosismo do decadente império luso (ficou engraçada a frase...hein!).
Terminado o passeio ainda entrámos no Museu Estatal de Goa, edifício novo e moderno cuja qualidade da mostra museológica, ao nível de exposição de trabalhos escolares, não estava mal para aquele lugar e certamente para o número de visitantes/orçamento. No final da visita, como é tradição em muitos dos locais turísticos da Índia, convidaram-nos obrigatoriamente e logo a deixar o nosso nome no livro de visitas. Naquele dia, e já estava a fechar, só tinham tido o prazer de mais dois visitantes.
Pela noite repetimos o ritual de Internet/Jantar. Jantámos pizza no Domino's, conhecida cadeia de restaurantes norte-americana cujas pizzas, naquele lugar, custavam e custaram o preço de uma refeição de luxo. Com a noite veio a chuva. Fomos beber uns copos para fazer a digestão num bar complicado de encontrar.

Galeria de Mumbai


Mordomia do dia, tomámos o pequeno-almoço no quarto do hotel. Um pão com doce e manteiga, uma chávena de chá e uma peça de fruta fazem toda a diferença, depois de tantas horas de viagem.
Iríamos estar em Mumbai o dia inteiro mas, durante a noite, já esperávamos estar a caminho de Goa. O tempo útil era assim para aproveitar ao máximo na visita à cidade. É engraçado pensar na distância que percorremos nestes dias, aqui mais a Sul a atmosfera de monção já é nesta altura notória e a paisagem é claramente tropical e, mais que em Delhi, tipicamente colonial. Como não íamos passar mais nenhuma noite no quarto, fomos até à recepção perguntar se era possível deixar aí as mochilas até à hora de outro comboio. O recepcionista, quase um sósia perfeito de Mr. Bean, consentiu e partimos à descoberta de Mumbai.
Mumbai ou Bombaim (na terminologia colonial) é a capital do estado de Maharashtra, sendo a mais activa, cosmopolita e povoada cidade da Índia. Com 15 milhões de habitantes, esta metrópole de contrastes é o principal porto e centro financeiro do país, abrigando também a mais importante indústria cinematográfica do mundo, conhecida por Bollywood. Quase que se assemelha a uma cidade europeia no desenvolvimento, limpeza e arranjo urbano, tráfico automóvel, comércio, etc. Arranha-céus edificam-se ao lado de palácios vitorianos, bazares tipícos concorrem com modernos centros comerciais, e, quarteirões de luxo são rodeados por miseráveis bairros de lata. Uma cidade de extremos de pobreza e riqueza, mesmo na melhor moda indiana.
Quando saímos do hotel estávamos, diga-se, um pouco desorientados. O primeiro objectivo era chegar até à Gateway of India e daí dar início ao nosso roteiro. Como a escala do mapa que tínhamos não era a mais clara, optámos por apanhar um táxi. Depois de cerca de 50 segundos a ser conduzidos para o nosso destino - chegámos! Foi o descrédito total. A mais curta viagem de táxi de sempre, evitável se o condutor zeloso nos tivesse alertado que se tratava de uma distância para 2 minutos a pé.
Voltámos a comer outro pequeno-almoço num café de esquina. Vários dias sem uma refeição de jeito fazem com que não se percam as oportunidades de ter a barriga cheia.
Passeámos então pela marginal até à Gateway of India, o mais famoso monumento de Mumbai, na forma de arco de triunfo por onde os Raj britânicos entravam na cidade. Nos arredores da porta é de admirar uma série de edifícios imponentes de estilo colonial e vitoriano. O Yacht Club, hoje sede da Comissão de Energia Atómica, o Royal Yacht Club, inicialmente um anexo residencial do Old Yacht Club, e o imponente Taj Mahal Hotel, construído em 1903 pelo importante industrial parse Jamshedi Tata após ter sido impedido de entrar no Watsons Hotel, reservado a brancos. O Taj, com esplêndidas arcadas e colunas mouriscas e majestosas escadarias e galerias, é hoje um dos mais luxuosos hotéis asiáticos. Do Watsons Hotel, subsiste apenas um edifício decadente.
Como estávamos ali, perto da doca, e não sabíamos se depois nos daria jeito ou tempo voltar, decidimos apanhar o barco e visitar a ilha de Elefanta, uma ilha a leste de Mumbai onde os templos subterrâneos de Elefanta (século VI) foram escavados num penhasco e dedicados a Xiva, guardando algumas das obras-primas da escultura indiana. Originalmente chamada Gharapuri (Cidade Fortificada), a ilha foi baptizada como Elefanta pelos Portugueses, após a descoberta da estátua de um elefante. Classificada como Património Mundial da Humanidade, algumas das estátuas já se encontram mutiladas e sem o brilho que devem ter tido outrora. Muitas delas sem pernas, braços ou cabeças, foram os alvos preferidos para os treinos de tiro dos marinheiros coloniais - diga-se, para este caso - por nós, portugueses - com boa fama de destruidores de património.
A visita incluía um guia que nos explicava as várias representações de Xiva, ao longo dos grandes painéis de estátuas da caverna. Não sendo nada dispensável, a visita não suscitou grande entusiasmo da nossa parte. Não era nada de espectacular. Uma ilha. Cavernas com estátuas. Muitos macacos, suficientes para o letreiro de entrada - "Beware the Monkeys", que perante um desafio nosso lá acabaram por nos roubar uma garrafa de água. Depois de vermos as cavernas sagradas, fomos a pé até ao ponto mais alto da ilha, a fazer tempo para apanhar o barco de regresso. Ainda a caminho do cais de embarque começa a chover em grande, repito, mesmo em grande. Como o barco era um pouco para o descoberto, e não nos foi permitido baixarmos as lonas de protecção, seguiu-se uma longa e molhada viagem até voltarmos a Mumbai.
Ao almoço, perto do Taj Hotel, comemos uns spring-rolls, espécie de crepes "muita-bons" que qualquer dia me vão obrigar a fazer a experiência cá por casa, destinada ao insucesso como é óbvio. Seguimos a pé a conhecer mais cidade, carregada de edifícios de uma imponência colonial digna de nota: Prince of Wales Museum, Victoria Terminus, Bombay University Fort Campus, Old Secretariat, David Sassoon Library, Rajabai Clock Tower e High Court. Durante esta walking tour cruzámos um relvado onde se jogava futebol europeu, já por si raro em comparação com a prática de cricket (desporto nacional, vá-se lá saber por que graça). O jogo entre amigos indianos chamou-nos a atenção pelo facto de, por incrível que pareça, ser a selecção portuguesa a mais representada, com as camisolas (modelo não certificado pela FPF de certeza) de Figo, Deco ou Cristiano Ronaldo, a executarem passes menos mágicos mas ao nível esperado para aquele lugar.
Precavidos reservámos entretanto os bilhetes para a etapa pós-Goa, já rumo ao Norte e a casa. Já estávamos a chegar àquele ponto em que a viagem se transforma menos em ida e mais em regresso. E sinceramente começávamos a pensar - ainda bem. A contagem dos dias que falatavam para o regresso já se tinha iniciado e era recorrente. À pergunta "onde é que estarão as minhas máscaras agora?" eu respondia - "faltam y dias para estarmos em Lisboa". Ritual que se repetia todas as manhãs.
Passando pelo hotel para levantarmos as nossas mochilas, já que se fazia tarde, jantámos uma sopa picante (que alguns não tiveram coragem para a acabar). Dizer picante é pouco. A sopa era tóxica, mas boa para o meu nariz entupido. Aliás, por causa do nariz, bloqueado desde Kathmandu (e até hoje), cometi a proeza de visitar uma farmácia na Índia onde comprei comprimidos avulsos, que só tomei depois de me certificar, via e-mail, se eram mesmo para o efeito pretendido.
Uma hora antes, cerca das 21h00, já estávamos à seca no Victoria Terminus, à espera do comboio para Goa e para os vestígios do império português do oriente.


Os dias tiveram sempre alguma coisa para se dizer sobre eles. Este pouco ou nada tem para se acrescentar a não ser o têk-têk, têk-têk, têk-têk do andar do comboio. Muitas, muitas horas de puro vegetanço em movimento. Chegámos finalmente a Mumbai por volta das 23h00, depois de 34 horas de comboio, 77 horas de termos saído de Kathmandu e com 1.700 km percorridos nesta etapa. Sem dúvida a mais longa e demorada viagem por terra que fiz.
Apanhámos um táxi até ao hotel, conduzido por um sikh sinistro, mais o seu amigo. Não jantámos entretanto porque desde os atentados bombistas na cidade, em 1993, todo o comércio fecha a horas decentes. Sobrevivemos com um pacote de batatas fritas que comemos numa estação de serviço a caminho. Já passava da meia-noite quando chegámos ao hotel.


Eram já cerca das 9h00 da manhã quando sentimos o regresso a Varanasi. Sinceramente é uma terra em que, feitos dois passeios de barco pelo rio e pelos ghats, não se quer tão cedo voltar. Já tinham passado cerca de 39 horas, desde que deixámos Kathmandu rumo ao destino desta etapa, Mumbai. O resto do dia não seria diferente do anterior. Dia inteiro ocupado com o caminho, a viagem até lá. O comboio de Varanasi a Mumbai só partia às 13h00, portanto fomos para o bar de um hotel, ler, escrever, ouvir música, comer, e tudo o que desse para fazer e passar o tempo rapidamente. Tivemos tempo ainda para passar por um cyber cafe e pela estação, onde reservamos os bilhetes para e de Goa.
Almoçámos no hotel e apanhámos finalmente novo comboio. Seria uma viagem pacífica. O Philip começava a ler o livro Shantaram, de Gregory David Roberts, que viria a substituir as crónicas do Miguel Esteves Cardoso no top das leituras da viagem. O resto do tempo era passado a admirar paisagens, ouvir música, dormir, enfim... na pasmaceira de uma grande viagem de comboio.


O autocarro chegou a Sunauli, perto da fronteira Sul entre o Nepal e a Índia por volta das 6 da manhã. Tinham sido 12 horas de viagem, até agora. Para chegar até ao posto fronteiriço era necessário apanhar um ciclerickshaw que demoraria cerca de 10 minutos a chegar à última linha do país. Trocámos as rupias nepalesas que ainda tínhamos por rupias indianas, a uma taxa duvidosa. Carimbámos os respectivos vistos de saída do país. E estávamos novamente na Índia, de regresso às confusões, aos esquemas manhosos, à sujidade nas ruas, ao assédio dos indianos.
Cerca de 2 segundos depois de abandonarmos o ponto de fronteira da Índia, já tínhamos um "simpático" amigo que nos chateava para irmos no táxi-jipe dele (ou do amigo do amigo, nunca se sabe). Tínhamos pensado ir de autocarro, mas face à promessa que estava mesmo a partir aceitámos seguir na viatura. A promessa saiu furada. O autocarro passou por nós, quando ainda estávamos à espera que o nosso jipe enchesse, necessariamente e invariavelmente, para seguir o seu caminho até Gorakpur, onde esperávamos apanhar o próximo comboio até Mumbai, muitos quilómetros e horas para Sul.
Chegados a Gorakpur, cerca de 2 horas e meia depois, o nosso caminho foi directo para a estação de comboios. A cidade não apresentava qualquer atracção que fizesse deslizar melhor o tempo, pelo contrário, portanto queríamos o mais rápido possível seguir o caminho. Na estação as notícias não foram as melhores. Não haviam vagas no comboio para Mumbai durante os próximos dois dias. Estávamos à partida presos. Lembrámo-nos, mais uma vez, que as coisas na Índia nunca correm como esperamos que corram - bem.
Tivemos de recorrer a uma agência de viagens do outro lado da estrada. Como a maior parte dos indianos tem amigos de amigos que os ajudam (não confundir com corrupção, que isso não existe naquelas paragens), se pagássemos um extra na agência, para além da taxa normal para estrangeiros perdidos, talvez se arranje uma forma de se arranjar um bilhete de comboio. Foi o que fizemos. Arranjaram-nos então um comboio nocturno até Varanasi (sim, lá tínhamos de regressar) e depois outro daí até Mumbai, onde chegaríamos muitas horas depois. Sem outra opção mais rápida, aceitámos e pagámos o preço inflacionado por 3 vezes dos bilhetes.
Passámos a tarde a dormir num pseudo-hotel perto da estação. Uma despedida de um sono em colchão, e das comodidades de um duche, antes de três noites de viagem de comboio. Não faltou, mais uma vez, Star Movies, HBO e AXN.
À noite, por volta das 22h00, partíamos em direcção a Varanasi, em 1.ª classe partilhada com mais meia dúzia de penetras e amigos dos amigos do revisor.

Galeria de Kathmandu


Era o último dia em Kathmandu.
Acordámos de manhã com a ideia de irmos ver o que realmente tinha acontecido às nossas bicicletas. Roubadas ou guardadas? A segunda hipótese veio a, felizmente, revelar-se a verdadeira. O dono das bicicletas, que por artes mágicas conseguiu tirar o cadeado de cada uma, guardou-as dentro da loja para evitar o potencial roubo. Limitámo-nos portanto a entregar as chaves dos cadeados, a receber de volta os cartões que lá tínhamos deixado e a devida caução monetária.
A tarefa seguinte era, finalmente, arranjarmos forma de despachar as máscaras de madeira do Philip pelo menor número de rupias nepalesas possíveis. O peso rondava qualquer coisa como 5 quilos (corrige-me Philip), o que se tornava impossível poder ser carregado às nossas costas durante o resto da viagem. Foram várias as agências de Thamel que consultámos, e várias modalidades ponderadas de expedição: de DHL, correio aéreo, correio marítimo, burro, rota da seda, teletransporte, etc. A mais barata das possíveis seria o correio marítimo, com o conveniente de ter um roteiro sui generis até um porto indiano, algures, e depois uma ida de barquito até à Europa, algures, num percurso que duraria cerca de 4 meses. Aspecto relevante - não havia seguro caso elas não chegassem ao destino. A muito custo, e sem muito mais dinheiro para gastar noutras opções, o Philip lá entregou as duas máscaras, que ficaram abandonadas e remetidas para um canto de uma loja mal amanhada, num dos primeiros andares de Thamel. Houve uma boa dose de confiança neste gesto.
Próximo passo, enviar os postais turísticos da praxe. Já no dia anterior tínhamos perdido cerca de meia hora a passear de ciclerickshaw convencidos que o ciclista condutor sabia perfeitamente onde eram os correios mais próximos. Conclusão - não sabia. E depois de estarmos claramente perdidos e às voltas, saltámos da viatura e mandámos o profissional passear sozinho, convictos que tínhamos perdido a hora de fecho da loja. Como ao fim-de-semana os correios estavam naturalmente fechados, entregámos os postais numa das caixas que existem nas lojas de souvenirs deste género.
Na zona de Thamel, o elevado número de turistas justifica também um elevado número de pedintes. De manhã as ruas enchem-se de mulheres com bebés nos braços, que vêem pedir simplesmente que o ocidental lhes compre leite no supermercado mais próximo. Durante toda a viagem nunca demos dinheiro a quem nos pedia, sendo que o mais comum e habitual era darmos um pacote de bolachas, que abríamos na altura nós próprios, antes que se lembrassem de as revender logo a seguir. Nesta manhã fomos até ver quanto custava o leite no supermercado. Não havia leite líquido, mas apenas leite em pó. O frasco mais básico custava cerca de 500 rupias nepalesas - algo à volta dos 10 Euros. Um abuso, até mesmo para nós que já estávamos a contar o dinheiro na carteira. Comprámos bolachas.
Almoçámos por lá, para não perdermos muito tempo e novamente mais um autocarro. Escolhemos um restaurante ao acaso. Na mesa ao lado ouvimos alguém a conversar em inglês. Duas ocidentais e um nepalês. O tema, não inédito quando éramos nós os interlocutores, girava à volta de Cristiano Ronaldo e do futebol português. Surpreendidos pela conversa da mesa do lado, o Philip lança o comentário "Portugal só é conhecido pelo futebol porque não deve ter mais nada de jeito". Era a prova dos nove. O ar ofendido da rapariga não deixava margem para dúvidas. Era portuguesa, chamava-se Sofia e tinha um percurso de vida cheio de coincidências. Tinha -se licenciado em Direito como nós. Tinha feito o European Master in Human Rights, que o Philip ia começar em Setembro. Tinha trabalhado no Parlamento Europeu e estava agora a fazer voluntariado numa ONG no Nepal. Seria a única portuguesa (ou português) que encontraríamos durante toda a viagem.
Depois de uma última ida aos e-mails, já que íamos estar afastados durante uns dias da tecnologia, apanhámos um táxi até à estação de autocarros. Por volta das 18h00 partimos de Kathmandu para Sunauli com vontade certa de voltar... um dia.


Cansados do esticanço físico do dia anterior, ficámos a dormir até tarde. A nossa estadia no Nepal, para infelicidade do Philip, não se poderia alongar mais, sob pena de hipotecarmos o restante do nosso roteiro, que depois de tantas voltas e reviravoltas, já estava mais ou menos assente. O dia estava reservado, assim, para qualquer coisa como compras.
Fomos levantar as bicicletas, que tinham ficado em stand by durante o dia de rafting, e partimos para a Durbar Marg, uma espécie de baixa da cidade, com algumas lojas de "luxo". O objectivo era levantar dinheiro com o American Express do Philip. A tarefa não foi fácil, iríamos ficar cerca de 3 horas para descobrir uma série de burocracias dignas de um simplex financeiro. Primeiro perdemos tempo a descobrir o lugar onde era a representação do cartão, escondida no meio de um condomínio comercial. Depois perdemos tempo à espera da emissão de traveler cheques, já que o levantamento directo de dinheiro não era possível no Nepal. Por fim, não terminado o ciclo, tivemos de ir ao banco trocar os traveler cheques para que, por fim e ao depois daquelas horas de espera, o Philip pudesse pôr a mão em dinheiro. Um demorado e complexo processo, como se queria na altura (ironia) e já devia ser expectável naquela zona do Mundo.
Depois de um almoço ligeiro, novamente na Freak Street, finalmente seguimos para as compras. Eu fiquei pela zona de Durgbar Square onde comprei roupa e não encontrei souvenir bastante que me seduzisse, e o Philip, que entretanto tinha metido na cabeça comprar uma máscara esculpida em madeira, partiu para nova escalada ao Swayambhunath, onde já tinha reservado uma máscara gigante, verde.
Encontrámo-nos depois desta divisão de caminhos (rara, durante os 40 dias) em Thamel, uma hora e logo depois de ter começado a chover pela primeira vez a sério em Kathmandu. A monção também já tinha chegado às montanhas. Era, como já tinha dito, mais um sinal que era hora de partir para oeste.
Passageira a chuva como se queria, decidimos ocupar o que restava da tarde e visitar o Tempo hindu de Pashupatinath, templo dedicado a Lord Shiva, na sua manifestação como Pashupati. Trata-se do mais importante templo hindu do Nepal, estando situado nas margens do sagrado rio Bagmati e sendo o principal local de cremações no Nepal. Não chegámos a entrar como símbolo de contenção financeira que se tornava cada vez mais necessária. Novamente fomos apanhados pela chuva. Esperámos que passasse. Pedalámos de volta.
Chegámos por volta das 18h30, mesmo a tempo da happy hour nos bares de Thamel. Estacionámos as nossas biclas amarrando-as num poste de electricidade da rua principal e seguimos para os copos vespertinos. Já de noite, uma sexta-feira à noite, e diga-se a nossa última noite em Kathmandu, passámos algum tempo pelo bar Funky Buddha e por uma discoteca ranhosa, digna de meia volta após os 5 minutos de estado de graça.
À volta para o hotel lembrámo-nos que as nossas bicicletas ainda estavam amarradas perto do bar que tínhamos ido no fim da tarde. Voltámos lá. Elas já lá não estavam. Digamos também que a zona onde as tínhamos estacionado não era das mais famosas de Thamel, pelo elevado número de sem-abrigo que lá dormem, à beira da estrada. Das duas uma, ou elas já estariam a pagar a comida de uma semana de alguém, ou, o dono das mesmas, que tinha a loja perto, já as tinha recolhido prevendo isso mesmo. Só no dia seguinte é que saberíamos.


Acordámos bem cedo. Já nos tínhamos apercebido que conseguíamos subir e descer as escadas do hotel sem grandes dores nem lamentos, as sequelas do trekking já estavam ultrapassadas, portanto o dia estava reservado à actividade física - rafting nos rápidos nepaleses. Nesta aventura estávamos acompanhados pelo Hari, o recepcionista do hotel com o qual, durante aqueles dias, sempre nos demos muito bem e que fizeram a nossa estadia, embora o hotel não o fosse, de cinco estrelas.
Depois de uma breve viagem de autocarro de cerca de duas horas (é incrível como o tempo se torna altamente relativo nestas andanças), lá chegámos ao ponto de partida. O grupo era de dois barcos de 8 pessoas, sendo que a nossa tripulação era luso-chinesa. Para além dos chineses, que se via que tinham acabado de descobrir o conceito de turismo (e ainda bem), existiam apenas mais dois holandeses. Durante a nossa descida parámos em algumas cascatas nas margens e houve tempo para nadarmos lado a lado com o bote, ao sabor do rio, levados pela corrente. O nosso dia foi portanto totalmente preenchido com os solavancos da descida, não muito fortes já que o nível daquele percurso de rafting não era muito avançado (só um chinês é que caiu ao rio e foi por mera estupidez, ao tentar salvar um balde de plástico usado nos nossos ataques de água entre embarcações).
Embora a ida tenha sido em autocarro turístico, já a volta teria de ser em autocarro "normal". Esperámos cerca de 1 hora à beira da estrada, até passar por nós um com destino à capital. Os autocarros no Nepal, como na Índia, são por si só um objecto merecedor de um relato mais desenvolvido. Apenas porque se tratam de potentes objectos de expressão artística popular, tanto no aspecto da sua pintura exterior, como no cuidado levado ao pormenor da sua decoração interior. O interior é revestido com tectos de espelhos, luzes luminosas (seria um pleonasmo se elas não fossem luzir a vários tipos de cores) e pinturas abstractas, que convivem cima a baixo, com bancos partidos e um chão digno de se lavar. Não havia lugar sentado no autocarro. Contudo, a companhia de autocarros tinha previsto esta situação e existiam banquinhos de 50 cm de altura feitos de ráfia. E ali fiquei eu, nos primeiros momentos, com as minhas longas pernas, sentado no meio do corredor do autocarro, num banquinho minúsculo de ráfia. O Philip desbundou e partiu para a aventura, saltando para o tejadilho do autocarro, até que a noite e o frio viessem. Não morreu. Agarrou-se.
Chegados de volta (ou quase...) a Kathmandu, fomos brindados com o engarrafamento da tarde, que é só um pouco maior que o normal e que entupiu completamente umas das poucas, senão a única, entrada na cidade. Fartos de esperar, mesmo que já sentados convenientemente os dois, a andar a uma média de 1 metro a cada 15 minutos, perguntámos a que distância ficava a cidade e partimos a pé, à noite e à lama, até algures no nosso destino. Depois de respirarmos uns bons quilos de escape, lá chegámos ao lugar onde o autocarro havia de chegar algumas horas mais tarde.
Apanhámos um tuk-tuk, uma espécie de autorickshaw nepalês, com capacidade em lata de 12-15 pessoas. Eram já 21h00, hora a que os restaurantes normalmente fecham. Comprámos uma pizza (mais uma bela e grata ocidentalização) e voltámos para o Star Movies e para um merecido descanso a ver Hollywood.


O nosso segundo dia no vale seria passado em Patan, a segunda maior cidade de Kathmandu e antigo reino vizinho deste, separado apenas pelo rio Bagmati.
Patan, ou Latitpur (cidade bela) como também é chamada, possui a maior concentração de monumentos do vale e, tal como a do dia anterior, também a sua Durbar Square é Património Mundial da Humanidade, isto é, igualmente espectacular. O cenário é portanto o mesmo: inúmeros templos budistas e hindus e uma verdadeira galeria ao ar livre de escultura, pintura e arquitectura nepalesa, que nos faziam perder vários minutos a captar fotograficamente as centenas de pormenores que saltavam, ou não, à primeira vista. O templo de Jaganarayan, um dos mais antigos da cidade, guardado por dois leões, possui um friso em madeira com figuras cravejadas ensaiando as posições sexuais mais exóticas, lembrando que o Kama Sutra é mesmo hindu. Voltámos a repetir o itinerário recomendado pelo Lonely Planet, apesar de algum forte assédio de guias turísticos. Foi através desse roteiro que descobrimos o Templo Dourado, um discreto mas elegante templo budista, repleto de inúmeras esculturas douradas de macacos, leões, elefantes, etc.
O Philip estava decidido a comprar uma série de máscaras nepalesas de madeira. Aproveitando a dica que em Patan estes souvenirs eram mais baratos que no restante vale, aproveitámos para visitar algumas oficinas, em busca do melhor preço que houvesse directamente no produtor. Resultado: uma máscara enfiada na mochila que tinha acabado de comprar, muito cómoda quando se anda alguns quilómetros de bicicleta, pelo menos cómoda para mim porque foi o Philip que a carregou.
Almoçámos com vista para a praça real e seguimos de bicicleta à procura de mais um centro de refugiados tibetanos, onde queríamos fazer algumas compras solidárias. Depois de pedalarmos um pouco (diga-se - perdidos) lá encontrámos o nosso destino (fechado). Voltámos para Kathmandu logo a seguir, já estávamos a deslizar entre o trânsito da cidade. Pelo caminho parámos ainda em algumas lojas e livrarias. As mochilas já se tornavam insuficientes, ou melhor, pesadas para aquilo que estávamos a adquirir.


A hospitalidade da Happy Home Ghest House foi das melhores que encontrámos durante toda a viagem. Tudo em grande parte graças ao Hari, recepcionista da casa, que estava sempre disposto a ajudar com 1001 dicas possíveis sobre a cidade, sobre os melhores caminhos ou as maneiras de entrar sem pagar na maioria dos sítios. Estar em Kathmandu, em comparação com estar numa cidade indiana, é como viver no primeiro mundo. Sentimo-nos frequentemente em casa. Tem tudo e mais alguma coisa que um ocidental em férias pode desejar. E dessa forma, mesmo antes de conhecer a cidade, já estávamos bem impressionados com a zona de Thamel, onde estávamos alojados e epicentro de grande parte da actividade turística do vale de Kathmandu.
Thamel sofre também do costume oriental de apetrechamento de paredes com a mais variada sinalética publicitária, não é, por isso, muito agradável à primeira vista. Basicamente é uma zona de hotéis, lojas de souvenirs, bares, restaurantes e bakerys. E estas últimas merecem algum desenvolvimento porque marcaram sem dúvida a nossa estadia. Depois de quase 20 dias na Índia, ou melhor, depois daqueles dias de chow-mein, atacar iguarias dignas de um gourmet oriental como o belo de um croissant de chocolate ou de um strudel de maçã, acabados de sair do forno, é de ficar a admirar e a salivar. Só a falta do pastel de nata é que nos fez prosseguir viagem pra outras paragens. As bakerys, que têm tanto esplanadas como take-away, abrem bem cedo, portanto era lá que tomávamos um pequeno-almoço de reis (já que o Nepal é uma monarquia). A partir das 20h00 abriam liquidação total com descontos sobre o pão e os bolos de cerca de 50%. Claro está que havia espera pela hora e os melhores bolos desapareciam até às 20h10.
Embora seja a uma altitude considerável (1300m), o vale de Kathmandu é maioritariamente plano, assemelhando-se a um caldeirão rodeado pelas montanhas mais altas do Mundo (na primavera diz-se que a vista das redondezas é brutal). O clima também é francamente moderado, nem muito calor, nem muito frio. Do que é que os dois amigos se lembraram de fazer dada a planície do terreno e a amenidade da atmosfera? Isso mesmo, alugar duas bicicletas para pedalarmos durante, pelo menos, três dias. Havia um pequeno senão, Kathmandu é só uma das cidades do oriente mais poluídas, com níveis de poluição atmosférica quatro vezes superior ao normal, e um tráfego automóvel digno de respeito. Daquelas cidades em que os ciclo e moto-ciclistas sentem necessidade de usar a bela da máscara nas vias respiratórias. O risco de um acidente era recorrente, ainda para mais quando atingíamos velocidades consideráveis e tínhamos de combater por espaço na estrada, lado a lado com motas, carros, autocarros, e camiões. Durante a nossa estadia, não me lembro de nenhum de nós ter caído, o que, se fosse durante a hora de ponta, era morte certa por atropelamento. Houve vários percalços, no entanto, desde correntes a saltar ou o recurso de emergência ao travão da roda da frente sob pena de se atropelar seriamente um peão (acção que resultou num brusco lançamento em voo do meu corpo contra o amparo do guiador). Fora isso, foi brutal andar de bicicleta naqueles dias em Kathmandu, era o melhor meio de transporte da cidade, íamos a todo o lado que queríamos ir e quando quiséssemos, escapávamos ao trânsito e sempre dava uma certa adrenalina.
A primeira viagem nos nossos velocípedes foi a visita ao ex-libris da cidade e do país: Durbar Square. Dos sítios mais espectaculares e imperdíveis que eu já vi, com estes olhos que a terra não vai comer. Praça real, para além do antigo palácio real, hoje um museu, tem inúmeros templos hindo-budistas, estátuas, fontes, numa verdadeira viagem arquitectónica no tempo. Aliás a primeira coisa que fizemos, com ajuda do Lonely Planet, foi perdermo-nos nas travessas de metro e meio de largura, descobrindo ao virar de cada esquina um novo nicho, estátua religiosa polvilhada de pó vermelho e com oferendas de arroz, templos mínimos, ou pátios carregados de charme suficiente para pensarmos: quero tudo isto ao pé de casa. O estrangeiro, como eu e o Philip, paga para se passear naquela praça única, limitada felizmente ao trânsito automóvel. É necessário proceder a um registo do passaporte, já habitual, após o qual é atribuído um livre-trânsito válido por uma semana, que deve ser apresentado às autoridades sempre que solicitado. Durbar Square parece um mundo à parte; colorido a castanho, branco e vermelho, feito totalmente de pedra e madeira trabalhada, carregado de cheiro de incensos, animado com pombas e macacos a voar, com a banda sonora original dos sinos de oração e a nossa admiração por cada telhado ou pormenor decorativo dos edifícios. Os templos hindus partilham pacificamente espaço a escassos metros com templos budistas. E não são só 2 ou 4, são vários, muitos. E aqui, o assédio dos vendedores ambulantes é um sossego em comparação com outras paragens.
Depois do passeio fomos visitar o palácio/museu real no centro da praça, o palácio de Hanuman Dhoka. O Nepal ainda é uma monarquia, aliás actualmente das monarquias mais em perigo de cair, e a tensão sente-se de vez em quando. Tudo começou a ruir em 2001 com a morte do rei Birendra, assassinado pelo seu filho, o príncipe Dipendra, impedido de casar com uma noiva que os pais não achavam adequada. Aparentemente drogado ou sob o efeito do álcool, Dipendra interrompeu a tiro de metralhadora uma festa, matou nove pessoas da sua família real e depois suicidou-se. O novo Rei, Gyanendra, irmão de Birendra, em Outubro de 2002 afastou o Governo eleito, usando o pretexto da rebelião maoísta. Seguiu-se uma série de executivos de nomeação real, até que, em Fevereiro de 2005, o Rei deu a machadada final na democracia, dissolvendo o Parlamento. O povo não se revê no novo rei, e aquilo ainda anda para o atribulado.
Almoçámos na Freak Street. Rua que deve o seu nome à elevada concentração de hippies nos anos 70, que procuravam a baixo preço de vida e droga, viver em grande. Era também hábito hippie de Kathmandu, adoptar o ritual de fumar marijuana ou haxixe, ao deus Krisna, fazendo-o em grupo, no seu templo. Tal era a afluência deste ritual, que este templo passou a ser conhecido, até aos dias de hoje, por Hippie Temple. Estivemos sentados antes do almoço nas escadas desse tempo, dos mais altos da praça, e na altura nem imaginávamos isto.
Depois de um almoço vegetariano pedalámos até Swayambhunath (Templo dos Macacos), uma stupa budista gigante num dos pontos mais altos do vale e um dos mais antigos edifícios religiosos do vale. Basicamente é uma cúpula branca gigante, com um pináculo dourado onde somos constantemente observados por quatro pares de grandes olhos de Buda. Para chegarmos lá tivemos de subir uma escadaria de 365 degraus. Durante a nossa visita, que durou quase uma tarde, gozámos a companhia de um guia auto-proposto, que só não foi imediatamente despistado, porque até era simpático, apesar de no final se ter arrependido certamente com o baixo valor da sua recompensa.
Já de regresso a Kathmandu, depois de um dia de pedalanço, fomos jantar à grande num dos melhores restaurantes de Thamel - o Third Eye, altamente recomendado pela Antonieta, a mãe do Philip, que à distância nos pagou o jantar. Comemos muito e bem, num dos jantares melhores e mais caros da viagem, custou cerca de 10 euros a cada. Irónico, não?


O dia foi de autocarro. Sempre excepto quando estávamos parados para comer alguma coisa ou responder às vontades da natureza. Foi das maiores viagens de autocarro que alguma vez fiz. A paisagem era diversificada: o Sul do Nepal é uma autêntica planície, sem nenhuma cidade relevante: o Norte e a zona até Kathmandu têm uma paisagem já de montanha, com inúmeros cursos de água. Para dar alguma animação à viagem, o Philip passou algum tempo a viajar no telhado no autocarro a apreciar as vistas.
Chegámos a Kathmandu, vencido o habitual engarrafamento de entrada na cidade, por volta das 19h00. Instalámo-nos na zona de Thamel, no Happy Home Guest House (antigo Hotel California). Fomos jantar comida a sério (diga-se, carne) e saímos para beber um copo naquela zona.
Finalmente vivíamos civilizados e percebíamos que Kathmandu seria brutal.


Tomámos o pequeno-almoço onde? Já se sabe - no Glennary's. Foi aí que carreguei as primeiras fotos na Internet, para que a família soubesse que estava inteiro, nem muito raquítico, nem muito sujo. O dia iria ser todo preenchido com viagens e esperávamos estar no dia seguinte já em Kathmandu, no Nepal, a "apenas alguns" quilómetros e horas de distância. Por volta das 10h00 apanhámos um jipe partilhado com outros interessados até Siliguri (78km). Aí apanhámos de imediato um ambassador (o primeiro carro manufacturado por inteiro na Índia em 1948, normalmente branco e com o mesmo estilo clássico da data da sua criação), também partilhado, que nos levou até Phulbari (15km), a fronteira da Índia com o Nepal. E andando um pouco a pé cruzámos a fronteira "fortemente" guardada do Nepal e fomos legalizar a nossa presença no posto fronteiriço.
O visto custava 20 dólares. E tendencialmente o uso dessa moeda era obrigatório, na medida em que eles tinham diferenças de preços substanciais, caso pagássemos em euros ou em rupias indianas. E mesmo pagando em rupias indianas tal opção era claramente impraticável, quando é proibido entrar no Nepal com notas superiores a 500 rupias (as únicas que eu tinha e que escondi bem no fundo da carteira sob pena de mas confiscarem durante a estadia).
Assim que saímos do posto fronteiriço, carimbado o nosso visto de turismo e a cerca de 1 hora da partida do autocarro marcado, fomos logo abordados na rua com a proposta de comprar bilhetes de avião até Kathmandu. Nem quisemos fazer conversa, este assédio já era rotina e gozámos um pouco: "Ya, ya, deves estar com sorte" e sem olhar para trás fomos à procura da agência de viagens do autocarro, confirmar que ali estávamos, prontos para partir. Pareceu então que quem não estava com sorte éramos mesmo nós. Devido a revoltas naquela região (o que envolvia mortes, tiros, assaltos e violência gratuita), as estradas estavam cortadas. Logo não iriam partir naquele dia nenhum veículo dali que tivesse como destino o resto do país. As alternativas que nos davam eram então: ou comprar um bilhete de avião, ou esperar que as revoltas pacificassem, ou então dar a volta ao Nepal por fora (Índia) e entrar pelo Sul, sendo que esta última implicaria cerca um atraso de 3-4 dias nos planos da nossa viagem. Para a pergunta: "Quando é que acha que as coisas ficam mais calmas" veio a resposta: "Aqui no Nepal não se pode prever nada, tanto pode ser logo à noite, como amanhã, daqui a uma semana, um mês...".
Fomos almoçar, para pensar no que estava a acontecer. Karkavita era segundo o nosso guia "o lugar onde não vais querer estar, mais tempo do que o necessário para apanhar outro transporte". E mesmo com os azares na fronteira com o Butão, acho que aquelas horas foram, para mim, os piores momentos da viagem. A tarde em que estive com mais vontade de estar no meu quarto, em Lisboa. Estava cansado fisicamente do trekking e já psicologicamente da viagem. Estava já há bastantes dias sempre com o Philip e começava a implicar com algumas reacções dele (na maior parte das vezes nem sequer me manifestava, mas por vezes obrigava-o a ouvir um comentário torto da minha parte). Ele também devia estar cansado da minha companhia. Estava farto de comer pratos indianos. Estava farto de ser abordado por eles. Estava cansado e aquele atraso veio também pôr em cima da mesa a questão (que tínhamos vindo a adiar até aí) dos planos futuros para a viagem. O planeamento original já tinha sido posto de lado logo em Delhi e estávamos agora a planear as coisas um pouco ad hoc. O Philip fazia questão de estar no Nepal o máximo de tempo possível e de ir a Agra; e eu fazia questão em ir a Goa, onde ele, entretanto, já tinha estado, e fazia questão em afirmar que não tinha qualquer gosto em ir. Aquele atraso de 4 dias e a vontade do Philip ficar mais 1 semana no Nepal, tornava incompatíveis as expectativas de cada um de nós. E a solução mais justa para ambos seria separarmo-nos por uns dias. Em todo o caso, mantínhamos alguma esperança que a situação na região normalizasse e decidimos passar lá a noite naquele "lindo" lugar, para o caso de ouvirmos alguma buzinadela de autocarro.
Passámos o resto da tarde de plantão na agência de viagens, esperando pelos desenvolvimentos daquela crise. Não partindo nenhum autocarro até às 18h00, só poderia partir então de madrugada, mas muito dificilmente, sendo a melhor hipótese de fuga a manhã do dia seguinte. Também fartos de estar à espera de nada, partimos à descoberta de um hotel e de Internet, para nos abstrairmos da paisagem daquele sítio. Eis então que anoitece e rebenta uma chuva torrencial. É engraçado como essas imagens, mesmo no cinema, acompanham sempre os piores momentos.
Jantámos no hotel, já que sair não era opção, e demos graças novamente ao Star Movies e aos filmes globalizados de Hollywood.
Não sendo por natureza pessimista, durante a viagem procurei encarar sempre os piores cenários como os mais prováveis. O Philip sempre foi mais optimista. Ainda bem. 03h00 da manhã. Acordo de rompante com a porta do quarto a abrir com um enorme encontrão e estrondo. "Tiago, traz a mochila estamos a sair, o autocarro parte dentro de 10 minutos". A estrada estava desbloqueada. Os autocarros estavam naquele momento a encher-se de gente que queria sair. Em 2 minutos e com os olhos ainda a abrir já estávamos a comprar os bilhetes junto ao autocarro. Tínhamos entretanto perdido o dinheiro dos bilhetes junto da agência, que apesar de muito prometer não nos tinha acordado e estava naturalmente fechada àquela hora. Não interessava. Estávamos em caminho e sempre o que interessou foi seguir viagem.

Galeria de Sandakphu

"De Mordor ao Shire"


Acordámos de manhã bem cedo. Primeiro porque tínhamos de chegar a Rimbick por volta das 13h00, sob pena de perdermos o único jipe do dia. Segundo porque não queríamos perder o início da manhã, quando as nuvens estavam mais baixas e permitiam daquele ponto uma vista memorável. Finalmente, tínhamos conseguido ter alguma sorte. As nuvens circundavam o Kanchenjunga mas permitiam de minutos a minutos uma vista clara do seu pico - o terceiro maior do planeta. E a restante vista era realmente espectacular e valia a pena o passeio até ali. Numa estação melhor a vista certamente deve triplicar de maravilhas: de um lado vales verdes pontuados por algumas nuvens lá em baixo; do outro picos montanhosos carregados de neve. Ali no meio das montanhas a estrela do espectáculo é sem dúvidas o Monte Kanchenjunga (8598 m) mas pode-se ver os não menos monumentais picos de Kabru (7338 m), Jano (Khumbhakarna - 7710 m) ou Pandim (6691 m). Aproveitámos logo para realizar as devidas fotos e filmes prevendo que, 25 minutos depois, o tempo podia mudar completamente para pior.
Iniciámos logo após o pequeno-almoço aquilo que seria, para contrastar com os dias anteriores, uma grande descida. 21km sempre a descer por trilhos cujos cenários foram dos melhores de sempre. Basicamente iniciámos a caminhada numa terra de árvores mortas e terra queimada, que apelidámos de Mordor, cruzámo-nos com pastores, vacas e cavalos selvagens, pequenas cascatas e riachos com rápidos, até chegarmos a Rimbick, uma aldeia pitoresca de montanha que nos lembrava o Shire. De Mordor ao Shire, éramos verdadeiros senhores dos anéis de regresso a casa. Durante o caminho conseguimos ainda perder o rasto tanto do guia como do carregador, que nos encontrou perdidos no meio de um campo de milho.
De regresso a Darjeeling, já ao fim da tarde, decidimos ficar noutro hotel que não o tradicional Long Island. Tínhamos as pernas derretidas e não nos apetecia ter de escalar toda a cidade de Darjeeling para ir dormir. Ficámos assim perto do Glennary's, e foi lá que tirámos a barriga de misérias ao jantar com uma excelente Tandoori Chicken.


Saímos também nesta manhã bem cedo. A etapa apesar de curta, cerca de 4km até Sandakphu, era bastante íngreme e quanto mais cedo chegássemos, mais probabilidades existiam de a vista não estar encoberta, já que de manhã o tempo estava sempre melhor que de tarde. Antes de sair o guia aconselhou-nos a comprar noodles para o almoço, aqui não se tratava de uma probabilidade meteorológica mas da certeza que podia não haver comida lá em cima para nós. A subida demorou cerca de 2 horas e ao longo do caminho existiam frases de motivação pintadas em rochas do género: "não há doces sem suor".
Quando chegámos foi uma vitória mesmo que nada se visse. Estávamos estoirados mas tínhamos conseguido vencer a montanha. Sandakphu fica a 3626m e naquele momento não nos estava a oferecer qualquer vista espectacular. Variámos e comemos os noodles não como chow-mein mas numa sopa altamente picante e quente. Passámos o resto da tarde no "café-restaurante" do sítio, a escrever, ler, comer e a ouvir música. Apesar de remota vivem cerca de 10 pessoas lá, entre responsáveis pelos huts e soldados, que fizeram uma festa por nos ver e por poderem fazer alguma coisa de útil - um registo no livro e mais uma verificação de passaportes. Era o fim da época de trekking e a última noite em que os huts recebiam gente. Éramos os únicos caminhantes no topo da montanha. No hut, para não variar, não havia nem electricidade, nem água, nem gente para limpar as dezenas de garrafas de vodka vazias que estavam espalhadas pelos quartos.
Os nossos horários já estavam regulados para viver na montanha. Jantámos às 18h00. Estávamos a dormir às 19h00. Queríamos acordar cedo para ver se seríamos ou não brindados com a paisagem prometida.


A segunda etapa do trekking seria a mais puxada em termos físicos e também a mais longa em duração. Saímos de Tonglu por volta das 08h30, com um pequeno almoço de flocos de aveia indianos no estômago. O nosso guia tinha-nos convencido a alterar os planos e a aumentar o percurso daquele dia, mudando o lugar da nossa estadia de Gairibas para Kalipokhri, a maior altitude e logo mais perto do destino.
Um dos ditados de Darjeeling diz qualquer coisa relacionado com o facto de ser aí o lugar onde, num só dia, mais vezes se encontra a mesma pessoa. Várias vezes encontrámos o George na cidade, o professor australiano, depois de termos jantado com ele. E aquele dia, mesmo no lugar de judas onde estávamos, não quis ser excepção. E a cerca de 30 minutos de caminhada lá o encontrámos a fazer o seu trekking alternativo, diga-se by jeep. Ficámos como era tradição cerca de 1 hora a falar sobre tudo e mais qualquer coisa: sanguessugas, máquinas fotográficas, processo de Bolonha, ensino do direito, métodos escolares, origens familiares, ingleses na Austrália, história, e muito mais. Lá conseguimos parar a conversa e seguir caminho pressionados pelos olhares dos respectivos guias.
A primeira parte do caminho era a descer 9km até Gairibas e por isso nos separámos um pouco uns dos outros, andando cada um ao seu ritmo e parando de vez em quando para reagrupar. Demorou cerca de 2 horas e meia. A segunda parte do caminho de 6km até Kalipokhri era já com uma subida ao nível da do dia anterior, que até se suportaria bem, não fosse ocorrer a maior chuvada que apanharíamos durante toda a viagem, e que nem os nossos "lindos" guarda-chuvas asiáticos conseguiam aguentar. Não existia a opção de parar, aliás porque não havia abrigos, mas sim campo aberto, portanto seguimos viagem até chegarmos ao nosso segundo hut, não a pingar, mas a escorrer água.
Neste hut de uma família nepalesa, a 3170m de altitude, já não havia luz eléctrica e as nossas roupas foram de imediato para a lareira onde adquiriram um permanente cheiro a cinza que só sairia uma semana depois quando encontrámos uma lavandaria a sério. Por cima da minha cama repousava um quadro oficial do rei do Nepal e da família real, todos assassinados há poucos anos num banquete de família pelo irmão do rei que decidiu metralhar toda a família. Os sons recorrentes eram provenientes de vacas. E na sala, onde as galinhas passeavam livremente, fazia-se uma bebida alcoólica estranha numa caçarola que fumegava, apesar de não estar ao lume. Depois de dormir a sesta e jantar, eu e o Philip decidimos jogar ao Stop à luz de velas. Estavamos k.o. e deviam ser 21h00 quando já estávamos a dormir.


Uma das atracções de Darjeeling é o nascer do Sol a partir da Tiger Hill. O Sol nasce aí por volta das 04h30 e brinda-nos com uma vista-espectáculo sobre grande parte da cordilheira oriental dos Himalaias com o Evereste incluído. Em todas as noites que lá estivemos o Philip acordou para espreitar pela janela se valia a pena sairmos da cama (pelo menos ele dizia que sim...). Todos os dias se certificava se era possível ver um palmo e meio para além do seu nariz ou do vidro. Nunca tal aconteceu e eu (in)felizmente nunca acordei.
Acordámos naquele dia, no entanto, bem cedo. Apesar de no dia anterior já termos feito o check-out adiantado, que até mereceu trocas de colecções de moedas entre Philip e gerente do hotel, ambos numismáticos por sentimento e agora correspondentes.
O guia e o carregador, de nomes Harpoon e Nani respectivamente, já aguardavam à porta do Long Island por volta das 06h45, para nos levarem de jipe até ao início da caminhada, em Manebhanjang. A distância entre Darjeeling e esse lugar é de cerca de 26km apesar de demorarmos cerca de 1 hora para lá chegar. A caminho pudemos ver o pico do Kanchendzonga pela primeira vez (e seria que pela última?), deixando-se mostrar envolto numa matilha de nuvens que rapidamente o voltou a cobrir durante o resto do dia.
Com pequeno-almoço mal tomado e primeiro registo no controlo fronteiriço realizado, iniciámos a subida por trilhos. Diga-se que se tratava de uma "senhora subida", boa para abrir o apetite de quem não tinha nada para comer. Eram cerca de 9km a subir onde optámos sempre pelo caminho mais difícil e mais íngreme, que era porém o mais rápido. Fomos frequentemente acompanhados por uma escolta militar de 10 soldados do exército indiano que faziam a patrulha ao longo da fronteira entre a Índia e o Nepal, que estávamos quase sempre a cruzar.
Tanto eu como o Philip, fomos ainda mordidos por sanguessugas que entraram pelas nossas calças e nos sugaram à vontade, sem que a malta desse por isso. Tal tinha originado o primeiro conselho do guia para termos cuidado. Querendo seguir da melhor forma tal conselho perguntámos qual a melhor forma para as evitar. A resposta sairia depois da gargalhada indescritível que ele tinha e seria: "não se evitam, espera-se apenas que não mordam". Restava-nos assim verificar apenas, de vez em vez, se o facto tinha ou não ocorrido.
Ao longo do caminho existiam vários stupas budistas ou bandeiras sagradas que dão algum colorido à caminhada. Existiam também várias casas de chá onde pudemos descansar e comprar bolachas - Parle-G, de preferência. Para além das casas de chá sucediam em maior número os postos de controlo fronteiriço onde nos pediam para mostrar 1001 vezes o nosso passaporte e para autografar o livro de registos. Pudemos ver nesse livro que a 2 dias de distância andava por lá mais um português.
Chegámos a Tonglu (o fim desta primeira etapa) por volta das 13h. Tonglu ou Tumling fica a 3070m de altitude e é um dos picos da cordilheira de Singalila. Em dias normais pode-se avistar os vales do Nepal e do Norte de Bengala. Naquele dia nada se via a não ser água em estado gasoso. O hut tinha a arquitectura universal das casas de montanha, construção de madeira com os seus telhados agudos. Neste tínhamos sorte porque havia luz eléctrica, apesar de a água quente para um banho ter de ser aquecida num balde à fogueira.
Durante o resto do dia iniciámos aquela que seria a nossa dieta alimentar de montanha: chow-mein simples ao almoço e arroz com dal (molho de lentilhas) ao jantar. Além de dormir quase sempre, intercalava o meu estado desperto com a leitura das crónicas do Miguel Esteves Cardoso que tinha comprado na Feira do Livro.
A rotina era agora, para mim, andar, pensar e dormir.



Restabelecidos q.b. dos sucessivos azares desta semana, fomos de manhã procurar saber se existiam ou não interessados para o trekking em Sikkim. Como a sorte estava noutro lado do Mundo que não aquele, não havia ninguém disponível para nos acompanhar na aventura. O cansaço já não dava para grandes combates com o destino e optámos então por um trekking logo ali, na zona de Darjeeling, ao longo da fronteira entre o Nepal e a Índia e até ao topo de Sandakphu, onde hipoteticamente nos aguardava uma soberba vista do Monte Kanchendzonga (a terceira mais alta montanha do planeta).
O dia foi assim passado a preparar as coisas para nos fazermos aos trilhos o mais depressa possível, isto é, no dia seguinte. No Glennary's marcámos os huts de montanha para passarmos as três primeiras noites. Na Trek Mate contratámos um guia e um carregador e ainda alugámos uns casacos de penas, para não existir sofrimento com o frio da montanha. Já tínhamos os ténis de caminhada calçados. Tínhamos os cachecóis dos refugiados tibetanos. E, já não eram necessários quaisquer vistos ou permissões adicionais para a caminhada. Estávamos assim prontos para começar a andar.
Almoçámos noutro tibetano e jantámos um hambúrguer vegetariano, onde deliciado bebia uma das maiores glórias da nossa colonização - Coca-Cola. Várias vezes o Philip se armava em pseudo-fundamentalista anti-globalização e brindava-me com comentários do tipo "nem sabes o mal que isso faz", etc. e tal. Estava fresca e tinha felizmente o mesmo sabor de em todo o Mundo. Era um pedaço da civilização cá de casa.
Como se avizinhavam dias parcos no que concerne a manifestações civilizacionais, quisemos acabar o dia, ou melhor - a noite, no já saudoso Glennary's. Depois de uma tradicional ida à Internet, descemos até à cave e ao bar do sítio, o Buzz. Passaríamos então uma das noites mais bem passadas de toda a viagem. Não, não foi porque desbundámos da habitual (quando havia) cerveja Kingfisher, aliás porque nem era tão barata quanto isso. Mas sim porque partilhámos aquele momento com uma série de seres culturais interessantes, que atingiam o rubro quando soava uma música conhecida e decidiam dar ares ao seu bichinho da dança. Havia o grupo de estudantes americanas do Nebraska, que ali fazia escala numa viagem de estudo, e às quais desinteressadamente nos juntámos. Havia os canadianos para os quais o seu Estado pagava para trabalharem no terceiro Mundo. Havia os chineses que gastavam os primeiros trocos de novo-riquismo em cima de uma mesa de bar. Havia escoceses que tocavam ao vivo. Havia indianos de Calcutá que aproveitavam as férias para (sem as mulheres, como é óbvio) darem uma escapadinha nos bares da montanha. Todos eles dançavam e interagiam entre si de maneiras diferentes: as americanas de braços no ar soltando alguns, que não poucos, gritos histéricos; os indianos dançando homem-homem, abraçando-nos e pressupondo a nossa generosidade ao nos sacarem recorrentemente a mangueira da nossa Shisha; os orientais, ligados à corrente e tremendo de olhos fechados com o som banal de uma música; e nós, não dispensando a forma latina de dançar a par.
A noite acabaria no roof terrace do hotel dos americanos, a falar sobre a Europa e os Estados Unidos, sobre tudo e aquilo, sobre um grande momento que se viveu.


O dia seguinte não se adivinhava muito diferente que o anterior. Era o regresso pelo mesmo caminho, pelo mesmo modo e pelo mesmo tempo de viagem. Tínhamos comprado, logo no dia anterior (antes da nossa clausura no recinto do hotel), os bilhetes de regresso, não fossem as coisas continuar a correr mal e não haver lugar para nós desde a partida. O autocarro estava marcado para partir às 08h30 e nós decidimos estar lá bem cedo, não fossem as coisas, mais uma vez, correr mal. O nosso exercício constante era, agora, imaginar hipotéticos problemas para tomar de imediato comportamentos de prevenção. E foi o que fizemos. De mochila nas costas estávamos a chegar ao ponto de partida às 07h55, mais de meia-hora antes. E no exacto momento em que chegámos vimos o nosso autocarro, o único autocarro do dia, não parado à nossa espera, mas a partir. Ficámos apeados. Novamente bloqueados naquele sítio. E fomos logo apresentar queixa junto dos funcionários da empresa, alegando que nos tinham dito que o autocarro partiria às 08h30. O autocarro afinal partia às 08h00, mas mesmo assim eles tinham a marcação com os nossos nomes e tinham partido 3 minutos antes. Nada parte a tempo na Índia. Nada. Porquê aquele autocarro e daquela vez? Lá tentaram telefonar para o telemóvel do motorista em vão e pediram-nos desculpa, prometendo o reembolso do dinheiro, em Darjeeling. Realmente às 08h30 partia um autocarro, mas não para Darjeeling. Íamos então a caminho de Kalimpong, mais perto do nosso destino e com a possibilidade de apanhar um táxi-jipe lá. A viagem foi mais sofrível, até porque fomos por um caminho engraçado no meio de uma floresta cheia de macacos. Em Kalimpong estivemos pouco mais de 30 minutos, o tempo suficiente para apanhar um jipe partilhado para Darjeeling, em que tivemos a companhia de uma indiana peculiar. Falava com os cotovelos, enquanto era duramente beliscada pelo filho e perante a passividade do marido, que tinha um sorriso parvo.
Chegados a Darjeeling voltámos para o Long Island, o nosso hotel que fica mesmo no ponto mais alto da cidade. E, ao jantar, fomos ao Glennary's, uma das melhores descobertas em Darjeeling: um restaurante de decoração colonial e excelente comida; uma cafetaria/pastelaria com bolos satisfatórios; uma padaria; um ciber-café; e, um bar com música ao vivo - tudo no mesmo edifício. Jamais no resto da Índia.


Lembram-se de eu já ter escrito que a Lei de Murphy nasceu na Índia. Que se alguma coisa pode correr mal, correrá mal certamente. Os próximos dias seriam a prova disso.
Acordámos bem cedo para apanhar o autocarro com destino a Jaigon, a cidade indiana fronteira com Phuentsholing e o Butão. Era a primeira vez que ia andar de autocarro na Índia e digamos que o comboio, comparado com aquela viagem, tinha-se tornado um transporte público de grande luxo. Primeiro problema com que me deparei era que não havia lugar entre bancos para as minhas altas pernas. E não era lamechice de elas ficarem apertadas e eu vir a ter uma viagem bastante desconfortável. Existia literalmente uma impossibilidade física de elas caberem lá. Não dava sequer para me sentar. Pensando que ia viajar de pé o dia todo, lá consegui, no entanto, ficar naquele lugar no meio da última fila onde "se pode" esticar as pernas à vontade. Digo "se pode" porque naquele autocarro, não só não haviam lugares marcados, como a lotação estava próxima do infinito. E se partiu a viatura partira ligeiramente vazia, em poucos minutos, conseguiu encheu-se bastante. Durante a viagem não há paragens fixas. O cobrador de bilhetes passa grande parte do tempo a gritar à janela "Jaigoonne, Jaigooone, Jaigooone", intervalado pela buzina musical irritante do autocarro, que anuncia a sua aproximação. Do nosso lado esquerdo estava um jovem monge budista a vomitar janela fora. Do nosso lado direito estava um velhote nepalês também a vomitar janela fora. O cobrador decidiu fazer o jeitinho a uma menina mandando-a sentar na última fila, mesmo não havendo assento para ela, tendo ficado então cerca de 7 pessoas mal sentadas. A viagem estava portanto a correr "bem" e só duraria, nada mais, nada menos, do que 9 horas. Num autocarro de qualidade terceiro mundista, sem as galinhas do cinema, mas igualmente sujo e lotadíssimo de gente e bagagens. A ideia e perspectiva de visitar o Butão, contudo, justificavam isso. Era um país que não lembrava a ninguém.
Chegámos doridos e cansados por volta das 16h30. Já tinha dito que Varanasi tinha sido a segunda cidade mais suja que visitámos, porque Jaigon, diga-se, ficaria, sem qualquer dúvida, com o primeiro lugar. Olhámos à volta e decidimos correr para a Buthan Gate, em direcção ao "país mais feliz do mundo". Não podíamos continuar ali.
"Se pode correr, tudo correrá mal". À entrada dizem-nos que o Governo tinha recentemente decidido exigir visto a todos os estrangeiros, suspendendo a free zone de Phuentsholing. Todas as nossas informações, escritas e orais, que garantiam essa possibilidade estavam, portanto, desactualizadas, erradas. Batemos com o nariz na porta do Butão. Ainda procurámos analisar a possibilidade do visto, mas este só era possível se fosse pedido com bastante antecedência e através de um grupo organizado. Estávamos assim presos em Jaigon, a cidade mais feia do planeta, até ao dia seguinte.
Contentámo-nos a ver o Butão da Índia, notando o contraste evidente entre: quem tinha passeios nas ruas, e quem não tinha; quem tinha iluminação pública, e quem não tinha; quem tinha limpeza urbana, e quem não tinha; quem era feliz, e quem não era. Nós.
Conseguimos recolher moedas e notas do Butão e fechámo-nos no hotel e no seu restaurante. Não havia Internet na "cidade". Mas havia Star Movies, o "canal Lusomundo" da televisão indiana. Um dia inteiro de viagem - para nada! Viva o Dia de Portugal e das comunidades perdidas em Jaigon!


O nome de Darjeeling deriva do mosteiro budista Dorje Ling (Lugar do Relâmpago) e é terra de plantações de chá e clima fresco. Local soalheiro, no sopé dos Himalaias, foi a vila que os Ingleses tornaram capital de Verão de Bengala, sendo para aqui que o Governo se transferia quando o calor se tornava insuportável nas planícies. E foi basicamente isso que nós fizemos, se em Varanasi estavam uns bons 40ºC, aqui estava quase metade da temperatura... e chuva.
Darjeeling estende-se, numa complexa série de ruas e inclinadas escadarias, por uma encosta de cerca de 2000 metros de altitude. Podíamos estar a ser uns meninos ou até estar na altura muito cansados, mas o caminhar de manhã não foi isento de pequenas fraquezas e tonturas, custando o triplo subir uma rua ou uma escada (já que lá, ou se desce, ou se sobe).
A primeira coisa que fizemos no dia foi saber no Posto de Turismo quais as formalidades necessárias para fazer trekking em Sikkim, um antigo reino, agora parte da Índia, para o qual precisávamos de pedir um visto especial para entrar no território e outra autorização para fazer trekking lá. Não estávamos com sorte. Era Sábado e a cadeia burocrática indiana só abriria na segunda-feira, o que significava que só podíamos começar a caminhada lá para quarta-feira. O preço também não estava a ser muito convidativo e queríamos encontrar malta que se juntasse a nós, para dividir as despesas. Decidimos então deixar os nossos contactos e reservar a caminhada caso se encontrasse companhia, por nós ou através deles.
Perguntámos então se era verdade, como dizia o Lonely Planet, visitar o Butão sem a necessidade de pagar o visto diário normal de 200 dólares, visitando apenas a "zona livre" de Phuentsholing, uma cidade que funcionaria como centro de negócios entre indianos e butaneses. O funcionário confirmou-nos que sim, que era possível, e disse-nos ainda os horários dos autocarros que partiam de Darjeeling para aí na manhã seguinte. Tínhamos portanto um plano para ocupar estes dias de espera - visitar o Butão, mesmo que por só um dia.
Passeámos durante o resto da manhã pelas ruas da vila de Darjeeling (aquilo não é muito grande... para Índia). Darjeeling possui três artérias principais, a Hill Cart Road, a Laden Road e The Mall. Esta última é o eixo da cidade conduzindo ao superpovoado Chowrasta (cruzamento), ladeado de lojas e onde se pode dar uma volta... de pónei. Nesta última praça começámos a ver a formação de uma manifestação de pessoas que gritavam qualquer coisa em hindi. Na altura achámos piada, mas não ligámos muito. Fomos ainda, antes de almoçar, a uma "feira de comércio justo" que vendia produtos da TVshop - portanto, não me pareceu lá muito que o fosse.
Darjeeling, como as zonas circundantes, após a anexação do Tibete pela China acolheu uma grande massa de refugiados e imigrantes da região. Trata-se portanto de uma grande comunidade na cidade. Aliás, Darjeeling é totalmente diferente do resto da Índia porque é um centro de indianos, tibetanos e nepaleses. Almoçámos num restaurante tibetano. Isso para mim significava só uma coisa - carne. Já não comia carne há tanto tempo que já via as coisas como no Madagáscar - só bifes a passear nas ruas. Soube bem.
A meio do almoço assistimos à situação do dono do estabelecimento retirar tudo o que tinha lá fora à pressa e a fechar a porta que dava acesso à rua. Ouvia-se a manifestação anterior a se aproximar, e, ao que parecia, não estava a ser propriamente pacífica. Já tínhamos visto, antes de entrar no restaurante, todas as lojas da rua a encerrar e a recolher tudo o que tinham no exterior, mas por ingenuidade lá pensámos que se trataria de hora de almoço do sítio (nem sei ainda se eles a têm). Mas não, ao que parece os manifestantes estavam literalmente a partir tudo o que encontravam à frente, dado o espalhafato que ouvíamos imediatamente do outro lado da porta. Perguntámos então o que se passava ao dono do restaurante - contra quem era aquele protesto? E a resposta, mesmo para Índia, surpreendeu. Querem adivinhar? Suspeitas de fraude nas votações para programa de televisão Indian Idol. Ao que parece os indianos deliram com o programa. E em Darjeeling não só deliram (literalmente) como são os mais fanáticos pelo concorrente/cantor da região - Prashant Tamang. Ora quando a população, depois do programa da noite anterior, suspeitou que as companhias de telecomunicações estavam a bloquear os SMS's que davam os votos ao seu concorrente (e eram mesmo muitos), decidiram manifestar-se. Acabou tudo na destruição completa de todas as lojas, representações, outdoors e coisas relacionadas com a India's Reliance e a BSNL (as companhias manipuladas pelo governo, como nos diziam). Eles votavam e aparecia a mensagem a dizer que aquele código não tinha sido encontrado. A manifestação tinha pessoas de todas as idades, mesmo quando começou a chover a sério.
Queríamos visitar durante a tarde uma plantação de chá e o campo de refugiados tibetanos. Decidimos arranjar um táxi para a tarde. A conversa com o motorista, que não se debruçou muito nas perguntas-tipo para nosso espanto, incidiu principalmente no Indian Idol. Ele sabia em quantos países já esteve ou está em exibição o programa, como quem tinha sido o seu criador e a sua nacionalidade. Também fez questão de se lamentar do que tinha acontecido com os SMS's e tinha nos vidros laterais um cartaz com o apelo ao voto no Prashant e respectivo número e código.
Começámos então por visitar a Happy Valley Tea Estate, que ficava a cerca de 3km de Darjeeling. Tinha sido fundada em 1854 e era produtora de um dos melhores chás do Mundo. As plantas de chá, dispostas por toda a encosta, tinham no mínimo 80 e no máximo 150 anos. Os turistas podem passear no meio da plantação e no mesmo meio existe uma pequena "casa de chá", onde uma simpática senhora nos teve a explicar um pouco da bebida e da história da plantação. A explicação estava a ser feita enquanto ela nos servia chá e era frequentemente interrompida pelo facto de ela estar também interessada em ver a repetição do Indian Idol da noite anterior. Quanto à plantação, os donos da plantação decidiram abandoná-la em 2000, deixando centenas de trabalhadores à sua sorte que, todavia, brilhantemente conseguiram fundar uma cooperativa e explorar em nome próprio a plantação.
Fomos depois ao Tibetan Refugees Self Help Centre, um centro fundado em 1859 para acolher os milhares de refugiados que seguiram Dalai Lama, fugindo para a Índia. A principal actividade do centro, para além de ter duas escolas, um orfanato e um pequeno museu, é a produção e venda de artesanato tibetano como forma de garantir subsistência dos refugiados e do próprio centro. Comprei um cachecol e um gorro para a caminhada nas montanhas, e ainda um postal para eu e o Philip enviarmos para o CPR - Conselho Português para os Refugiados, onde tínhamos ambos estagiado.
Voltámos para jantar em Darjeeling. Aos aperitivos, reparámos num senhor estrangeiro, de alguma idade que se preparava para jantar na mesa ao lado, sozinho. Apostámos qual seria a sua nacionalidade e, como já estávamos fartos de nos aturar um ao outro, decidimos desafiá-lo para se juntar a nós. Ele ficou satisfeitíssimo. O George era um professor universitário, australiano e já reformado, que tinha decidido conhecer um pouco das suas raízes. Já tinha vivido em Darjeeling antes dos 10 anos e já não se lembrava da região. Tinha uma cultura geral surpreendente que abrangia tudo e mais alguma coisa, como a própria história de Portugal e das descobertas. Conseguia falar sobre tudo. E sobre tudo falava muito.


Este dia seria um dos muitos que se resume numa palavra apenas - viajar. A nossa carruagem seria a mais cheia que apanharíamos durante os dias na Índia. Cheia, porque por uns trocos os revisores fechavam os olhos àqueles que não tinham bilhetes para aquela classe. Acordaria assim a dormir com indianos diferentes aos meus pés. Tudo porque eu não estava a aproveitar bem o espaço que me tinha sido dado. E era um desperdício. (Ficaria nas viagens seguintes a dormir sempre nas camas superiores, ao menos aí nenhum se atrevia a subir para dormir comigo). Acordei depois com os gritos de um indiano a quem lhe tinha sido roubada uma arca de alumínio gigante que estava presa com corrente e cadeado, e que nós na noite anterior tínhamos até comentado: "aquela é que não vai ser roubada de certeza". Mas foi. E ao que parece com a conivência dos polícias do comboio e camuflado o assalto com a quantidade de gente que a carruagem tinha. Polícias esses que andam armados com espingardas mausers, cujo único disparo que devem fazer consistirá certamente numa coronhada na cabeça do adversário. O sujeito ficara então sem dois meses de ordenado - 1800 rupias (36 euros) e fez questão de se lamentar durante mais de uma hora aos berros. Eram 5h30 da manhã. Bom dia!
A meio da manhã, numa das centenas de paragens e apeadeiros que o comboio fazia questão de parar, olhava para a janela e comentei com o Philip: "estava ali uma indiana mesmo parecida com um homem". E afinal até que era. Quer dizer, mais ou menos. Foi o primeiro contacto com a casta d@s hijras, considerada altamente sagrada pelos hindus. As hijras fogem a qualquer convenção - eunucos, cross-dressers, travestis, hermafroditas, transgéneros, ninguém sabe ao certo o que as hijras são. Representam uma comunidade de cerca de 1 milhão de indianos, tratando-se do terceiro sexo, nem sendo nem homens nem mulheres, mas assexuados, como os anjos. Originalmente são rapazes castrados ou com anomalias genitais, embora hoje já se encontrem alguns apenas travestis. Segundo a cultura indiana, as hijras caracterizam-se por abrir mão da sexualidade masculina, não terem famílias e viverem celibatárias. E apesar de a homossexualidade ser ilegal e proibida no país, o povo indiano acredita mesmo que eles têm poderes mágicos e, por esse motivo, os chama para abençoar e dançar em casamentos e nascimentos, principalmente de rapazes. Eles sobrevivem ainda com a prostituição, sendo geralmente solicitados quando o cliente não pode pagar o preço de uma noite com uma mulher. A mendicidade é outro meio de sobrevivência desta comunidade, e, recentemente, algumas empresas financeiras indianas inovaram ainda ao os empregar para fazerem cobranças. Foi assim com muito espanto, mas veria que era normal, que assistimos a homens vestidos de sari a pedir dinheiro nas carruagens, e a indianos a dar de bom grado dinheiro, quando nada davam às crianças que pediam comer nas estações. Inédito.
Chegámos a New Jalpaguri e a Siluguri por volta das 14h30. Entrámos logo num táxi-jipe, partilhado com mais 9 pessoas, que subiria as montanhas e nos levaria até Darjeeling. A viagem demoraria cerca de 6 horas e só estaríamos lá já de noite, tendo ainda efectuado uma grande caminhada a subir, até encontrarmos o nosso hotel Long Island.

Galeria de Varanasi


Acordámos às 05h00. Objectivo: assistir ao nascer do Sol no Ganges. Apesar de ser cedo, já estava de dia quando apanhámos o barco. Nessa altura os ghats tinham mais cor que no dia anterior, com milhares de pessoas a tomar o banho sagrado e a entoar as suas preces diárias (aarti). Os banhos diários tomados nas águas do Ganges são prescritos nas escrituras hindus como sinal de preparação da alma para a última viagem de libertação.
Fomos depois de carro, numa visita organizada pelo hotel, ver os grandes templos hindus de Varanasi. O primeiro foi o Sri Sankata Mochan Hanuman Temple, dedicado a Hanuman, o deus-macaco; e o segundo o Tulsi Manas Temple, construído em mármore branco e com todas as Ram Charit Manas (escrituras sagradas) inscritas nas paredes. Depois desta incursão religiosa visitamos ainda o bairro muçulmano e uma fábrica de seda, com os seus teares. A visita organizada acabaria inevitavelmente noutra loja de seda. Novamente tivemos de suportar a meia hora da apresentação dos produtos para dizer sempre "não queremos comprar nada!". Outro dos aborrecimentos da maneira de ser indiana - nos negócios eles não desistem.
Fomos depois comprar mais DVD's e à Internet, uma abstracção que seria constante durante todos os dias e útil para a nossa sanidade mental. Durante esse período deixámos de plantão um motorista de auto-rickshaw. Mas voltámos. Pelo tempo que teve à espera (que foi bem mais que uma hora) e pela distância que percorreu o nosso condutor não concordava com o preço que queríamos pagar. O consenso estava então difícil de ser encontrado, na medida em que ele pedia muito e nós pouco. Ao fim ao cabo estávamos a discutir trocos, alguma coisa como 40 cêntimos. O conflito foi então mediado por um terceiro transeunte que encontrou o preço mais justo. Almoçámos pizza numa esplanada do Asi Ghat.
Como o nosso hotel afinal era outro, o nosso guia do dia anterior não nos tinha esperado à porta do hotel. Não nos escapámos porém de o encontrar outra vez, na medida em que ele estava à nossa espera na loja onde tínhamos de levantar as gravatas encomendadas no dia anterior. Novamente bebemos chai e novamente o nosso amigo nos perseguiu impingindo-nos outra loja de seda. Desta vez estava com um problema de comunicação porque não queria cuspir o seu tabaco de mascar e procurava falar à mesma - com a boca cheia. Perdemos só então paciência e fomos embora, acho que a situação era tão surreal que o Philip chegou a filmar o momento.
Regressámos ao hotel para arrumar as coisas e jantar cedo. Era fundamental estar cedo na estação de comboios. No entanto, tudo o que pode correr mal, correrá mal certamente na Índia. O jantar atrasou-se. Já estávamos atrasados quando começámos a comer. Como isto não chegava, a luz faltou em pleno jantar. Comemos às escuras e à luz de telemóvel. Foi difícil encontrarmos logo um auto-rickshaw que nos levasse para a estação de Varanasi. Quando lá chegámos faltavam 25 minutos para a partida do comboio. Nada mau, dava tempo para descobrirmos a plataforma, o comboio e a nossa carruagem. Passado pouco tempo, porém, apercebemo-nos que ninguém conhecia o número do nosso comboio. Lembrámo-nos então - "o comboio não parte desta estação!". Tínhamo-nos esquecido que em Delhi nos marcaram o comboio para a estação vizinha. Começámos, de mochila nas costas, a saltar os corpos deitados da estação e a correr para a saída. Um motorista de auto-rickshaw pressentiu a nossa corrida como uma boa oportunidade de negócio. Perguntámos quando tempo demoraria a chegar a Mughal Sarai, a localidade vizinha. Na altura balbuciou alguma coisa como 1 hora. Gritámos logo a apontar para a hora do bilhete - "não está a perceber nós temos de apanhar este comboio!". Acontece então o episódio de ele correr à nossa frente, de gritar para corrermos também e para entrarmos rapidamente para o auto-rickshaw. Um grupo de colegas junta-se à volta da viatura procurando saber o que se passava. Ele mostra-lhes então o nosso bilhete ao que eles respondem com acenos e gestos de "já foram", "estão lixados" ou "escusam de ir". O nosso motorista, pelas motivações que fossem, entra e pega o motor, sobe o passeio e arranca a toda a velocidade em contra-mão em direcção ao nosso destino. Faltavam 20 minutos para o comboio partir. Estava a ser e seria a viagem mais alucinante que fizemos, não só pela velocidade estonteante como pelo perigo das manobras e razias que experimentávamos. Grande parte da viagem estava a ser feita em descampado, numa estrada no meio do "nada" com pouco movimento e sem qualquer tipo de iluminação, a não ser a do pequeno farol da máquina. Para juntar à velocidade que andávamos, a estrada não era alcatroada, ou se era tinha cada buracão que nos projectava 1 metro acima do assento, ao ponto de darmos umas boas cabeçadas na lona, enquanto lutávamos para que as nossas mochilas não saltassem fora. Mesmo com um enorme vidro pára-brisas o nosso condutor inclinava-se para a frente numa autêntica posição aerodinâmica, e ao fim de uns bons quilómetros, quando faltavam já 5 minutos para o comboio partir, ouvimos o mesmo a cantar baixinho, diga-se, a rezar. O auto-rickshaw estava, sem qualquer dúvida, a dar o seu máximo; e o condutor, em verdade, também. No meio do nada, às escuras, a grande velocidade, com o nosso desespero para chegar a horas e a não ver sequer sinais de estação alguma, o nosso condutor PÁRA! Mas pára no meio do nada. Tinha desistido? Levanta-se do assento, sai da mota e começa a correr para a berma da estrada, perante a nossa boca aberta e literalmente falta de reacção. Ficámos petrificados. Ele desloca-se para um nicho sagrado, inclina-se, deposita uma moeda, recebe umas flores e toca um Sino. Dim! Regressa a correr motivado e segue a corrida. Foi cá um momento que acho sempre que não há palavras para descrever o choque que provocou em nós aquela paragem. Já passavam 15 minutos desde a hora marcada, quando chegámos finalmente à estação. Pelo esforço, lembro-me que lhe pagámos até mais do que o combinado, correndo logo a seguir para as plataformas. A ajuda divina tinha resultado, foi dos poucos comboios que partiu atrasado. Só partiria 5 minutos depois de chegarmos. Foi sorte ou então do sino. Íamos a caminho de Darjeeling.


Chegámos a Varanasi por volta das 11h00 da manhã. Desta vez não se dormiu mal no comboio apesar de haver algum desconforto por causa do calor.
Também conhecida por Kashi (Cidade da Luz), ou Benares, Varanasi situa-se na margem oeste do rio Ganges e é considerada a mais sagrada das cidades hindus, com um legado religioso e espiritual que remonta a cerca de 3000 anos. É engraçado contactar com uma religião contemporânea com as da Europa antiga, politeísta e carregada de cerimoniais e símbolos exóticos. Aliás mais tarde viria a dizer que Varanasi era uma autêntica cidade da Roma antiga, com os seus bazares, templos, castas, sacerdotes, mercadores e procissões funerárias pelas ruas, mas agora... já com motor de combustão. De resto era tudo muito estranho, diferente. Para além deste exotismo de cidade religiosa, Varanasi seria também a segunda cidade mais suja que visitaríamos.
Esta é a cidade de Xiva, o mais importante dos 12 locais sagrados onde, segundo a lenda, o deus terá irrompido numa flamejante coluna de luz e alcançado os céus. Santificada pela presença permanente de Xiva e do sagrado rio Ganges, a vida e a identidade de Varanasi são definidas pelos cerca de 90 ghats (escadas nas margens) ao longo do rio. Estes estendem-se desde Asi Ghat, a sul, até Adi Keshava Ghat, a norte, perto da Ponte Malviya, cobrindo uma extensão de cerca de 6 km. Pontuados por templos e santuários, os ghats perpetuam o contínuo ciclo de práticas religiosas hindus - desde os rituais diários aos complexos ritos de passagem.
À saída da estação tratámos de escolher entre os vários motoristas que se digladiavam entre si para nos dar boleia. Escolhido esse e dando a indicação do hotel que pretendíamos, fomos informados na recepção que a nossa reserva não estava anotada, mas que havia na mesma quartos disponíveis. Achámos estranho na altura, mas tudo bem (se ainda havia quartos) e instalámo-nos.
Fomos a seguir comprar DVD's para a máquina, num dos mercados de electrónica chinesa que havia por lá, e almoçar num dos restaurantes das ruelas tortuosas de Varanasi velha, onde tivemos a companhia de um Sadhu (homem-santo) e de uma francesa e avistámos o primeiro encantador de serpentes. Perdidos pelas ruas, onde o Philip teve direito a uma ameaça de cornada por parte de uma vaca, lá encontrámos o caminho até aos ghats e ao Ganges.
Foi nesse passeio à beira do Ganges que conhecemos uma das personagens da viagem. À partida era um indiano simpático. Começou com as perguntas-tipo de onde éramos e etc. E foi andando sempre ao nosso lado explicando-nos as particularidades de cada ghat e levando-nos a assistir às cerimónias de cremação, que duram para cada corpo cerca de 24h. Até aqui tudo "normal" para Índia, um pseudo-guia à espera de uma pequena contribuição no final da visita. Mas no final não nos pede dinheiro, mas sim que visitemos a sua loja de instrumentos musicais.
Como tínhamos tempo lá consentimos em visitar a loja dizendo logo de antemão que não tínhamos dinheiro para comprar nada. Entrámos então, não numa loja de música, mas sim, numa loja de sedas (um dos clusters de Varanasi). Sentámo-nos no chão almofadado, ofereceram-nos chai e iniciaram uma apresentação de tecidos que demorou cerca de 15 minutos, onde estenderam por toda a sala: colchas, saris, lenços entre outras utilidades. Estávamos sempre a dizer que não queríamos comprar nada, mas ele insistiam em nos mostrar outra coisa que talvez estivéssemos. Ainda não sei porque nessas ocasiões, em que começávamos a estar contrariados num sítio, nunca saímos por porta fora. Acho que sempre foi, porque tínhamos tempo, paciência e não queríamos causar um imbróglio de "falta de educação" entre nós e eles. No final, quase 1 hora depois, lá escolhi um tecido vermelho de seda e encomendei uma gravata, pensando que teria de começar a montar a minha colecção. À saída o mesmo "guia" continuou a perseguir-nos, o que seria constante. Delicadamente dizemos que queríamos ir para o hotel e ele fez-nos "prometer" (com figas) que iríamos ver a tal loja de música no dia seguinte. Já lhe tínhamos dito o nome do nosso hotel e ele garantiu que no dia seguinte estaria lá à nossa espera.
Apanhando um cicle-rickshaw, uma "bicicleta-carroça" que transporta 2 pessoas e tem a força motora das pernas do ciclista, e indicando o nome do nosso hotel fomos parar a outro completamente diferente. Confirmámos o nome e era realmente aquele que correspondia ao nome pedido. Mas não era aquele em que nos tínhamos instalado. O que se tinha passado? Só então perceberíamos a razão da falta de reserva na manhã, o primeiro motorista tínha-nos levado para outro hotel que não aquele que pedimos e tinhamos reserva (talvez por ambicionar uma comissão maior) e nós na altura não tínhamos confirmado o nome. Nem sequer nos passou pela cabeça fazer isso. E agora, onde é que era o nosso hotel? Qual era o nome do lugar onde estavam as nossas coisas? Não sabíamos. Estávamos perdidos. Cerca de 2 minutos de stress depois, talvez não tanto, lá nos lembrámos que tínhamos a chave do quarto com um grande porta-chaves com a marca do mesmo. Encontrámos o sítio, mas podia ter corrido mal.
No regresso ao hotel "certo" tive oportunidade de conduzir um auto-rickshaw durante cerca de 2 minutos, até que o condutor me dizesse que estava a ir depressa demais e que era melhor ser ele a conduzir. Incrível desculpa tendo em conta a maneira de conduzir deles.
Chegado o pôr-do-sol fomos fazer um passeio de barco pelo Ganges. O rio é venerado como uma deusa viva, Ganga, com o poder de purificar todos os pecados terrenos. Nessa altura os templos ao longo da margem adquirem uma luminosidade sublime. Todos os habitantes saem das labirínticas ruelas da cidade e dirigem-se para os ghats para lavar as roupas, fazer oferendas de lamparinas de óleo, flores e incenso ao rio, asanas de ioga ou tomar um banho ritual. Segundo a tradição cada ghat tem uma cor diferente. Os cais mais centrais, entre Digpatiya Ghat e Mir Ghat, são considerados os mais sagrados da cidade e muitos deles foram construídos sob o patrocínio de antigos principados da Índia, como Darbhanga, Jaipur e Indore.
Estávamos acompanhados no barco a remos por um israelita e por uma senhora de idade inglesa. Parámos um pouco no Manikarnika Ghat, um dos dois ghats de cremação de Varanasi, onde existe um fogo sagrado contínuo há milénios. Ser cremado em Varanasi com esse fogo sagrado é a salvação e porta de libertação imediata do ciclo de nascimentos e reencarnações (moksha) e por dia ocorrem em média 200 cremações. Em torno da cidade existem as chamadas casas da entrega onde centenas de moribundos esperam a morte junto da cidade sagrada, ansiando pela cremação com esse fogo guardado de geração em geração. Acredita-se que em Varanasi, Xiva murmura aos ouvidos dos moribundos.
Assistem às cremações os homens da família, já que as mulheres ficam em casa. A opção da cremação em Varanasi, por ser muito cara não se coloca à maioria dos indianos. Se a família não consegue adquirir madeira suficiente, o que não é raro, o corpo é cremado por fases: primeiro o tronco e braços, enquanto a cabeça e pernas ficam de fora, para serem sobrepostas depois de o tronco ceder. As cinzas e os pedaços de ossos são depois entregues ao rio. Como os corpos são cremados com jóias que a família não recupera, grupos de "intocáveis" vasculham nas margens por pequenos tesouros. Nem todos os mortos são porém cremados: crianças com menos de 5 anos, leprosos, sadhus (homens-santo), mulheres grávidas e vítimas de mordeduras de cobras são directamente atiradas nas águas do rio.
Escusado será dizer que não tomei nenhum banho ritual nos ghats.
No regresso do passeio parámos no Dasashvamedha Ghat onde assistimos a uma cerimónia religiosa hindu. Os sacerdotes, sentados em filas, sob guardas-sóis de bambu, tocavam continuamente sinos e entoavam cânticos de oração, enquanto eram seguidos pela assistência e acompanhados por um grupo de rapazes que efectuavam danças rituais para o rio.
No regresso houve ainda tempo para contactarmos com o regime de treino físico dos remadores do Ganges.


Vista e conhecida New Delhi, o último dia desta 1.ª etapa seria passado a visitar Old Delhi, de manhã, e o Lotus Temple, entre o almoço e a nossa partida de comboio.
Começámos por visitar Jami Masjid, a maior mesquita da Índia, com uma praça de oração de 28 m. e que pode acomodar até 20 000 pessoas durante as preces de sexta-feira. A visita começou por ser atribulada, para além de se tratar de uma máquina de chular dinheiro aos infiéis, só podíamos entrar/pagar uma máquina fotográfica ou de filmar e o porteiro recusava-se a guardar a outra e a perceber que não tínhamos outro sítio para a deixar. Inflexível como um mouro, arranjámos a solução de guardar a máquina de uma suíça que nos acompanhava no mesmo desalento, em troca do mesmo favor por parte dela. Vestiram-nos um saco de batatas, com a função de saia, a que nos habilitámos por vestirmos calções em local sagrado e finalmente, só depois de tudo isto, entrámos para visitar o espaço, grande e com chão de tijoleira escaldante para os descalços. Subimos as centenas de degraus do minarete e apreciámos uma vista panorâmica sobre a cidade. Como só tínhamos a máquina de filmar, tentámos filmar, antes de nos apercebermo-nos que os DVD's, que o Tiago tinha comprado em Londres, eram incompatíveis com o aparelho. Boa!
Após esperarmos pela visita da nossa recente amiga, que viajava sozinha e já tinha passado uma temporada no Afeganistão e Paquistão, fomos os três até ao Forte Vermelho. O nome advém das muralhas de arenito vermelho, e foi o centro do poder mongol até 1857. Foi também aí que se hasteou pela primeira vez a bandeira nacional, quando a Índia se tornou uma nação independente em 15 de Agosto de 1947. No interior para além do palácio, propriamente dito, existem dois museus relacionados com a história política e militar do país eu nós visitámos.
O tempo começava a apertar e tínhamos combinado almoçar novamente com a Yamini e a mãe. Antes disso, porém, não nos escapámos de visitar uma loja impingida pelo motorista do auto-rickshaw com o argumento que nos baixava o preço e que devido à nossa visita lhe atestariam o depósito de gasóleo. A loja estava localizada numa zona não comercial, portanto os clientes só vinham do mesmo modo que nós, e tinha-se especializado em produtos de grande qualidade e gama alta, isto é, muito caros. Não comprámos nada, como é óbvio.
Almoçámos num restaurante perto da casa da Yamini e fomos depois os 5 num auto-rickshaw de 3 pessoas até ao Lotus Temple ou Baha'i House of Worship, uma das estruturas de arquitectura moderna mais inovadora de Delhi, tendo a forma uma flor de Lótus, com 27 pétalas de mármore, prestes a abrir, e 9 lagos a rodear o edifício. Os Baha'i são uma seita que teve origem na Pérsia e que vê a humanidade como uma raça única, sendo seguidores de todos os credos e religiões do Mundo.
Despedimo-nos da família e retornámos para Paharganj onde estavam depositadas as nossas mochilas. Antes de apanhar o comboio para Varanasi tivemos ainda tempo de comprar uma corrente e cadeado para as mochilas, não fosse o diabo tecê-las; e de comprar os bilhetes para a viagem seguinte até Darjeeling, sendo que teríamos de partir então de uma localidade perto de Varanasi.
Para imaginar como são as estações de comboios na Índia basta pensar nas imagens que temos de campos de refugiados - centenas de corpos deitados e estendidos no chão à espera que a sorte mude. Para chegar ao comboio certo é necessário saltar sobre essa massa humana e animal, que também há vacas no interior, e conseguir encontrar um benemérito que nos traduza os placares em hindu e nos diga qual a plataforma da máquina. Informação que é necessário confirmar posteriormente com mais dois indianos, porque a expressão "não sei" é tida na Índia como sinal de fraqueza, portanto antes dar uma informação errada que dizer que não se sabe.
Fizeram-nos companhia um casal de ingleses e um japonês e ficámos na classe de Sleeper, isto é, na classe em que mesmo estando muita gente no interior da carruagem, temos lugares marcados, deitados e com ventoinhas no tecto. Não se podia pedir muito mais. É difícil de descrever, mas trata-se basicamente de uma carruagem com divisórias abertas (não compartimentos), com 3 camas em cada parede, sendo que no corredor também há 2 camas do lado esquerdo. Basicamente é muita gente, muito barulho, muita sujidade, mas até que não se viaja mal... para Índia.


O dia estava reservado para, finalmente, começarmos a visitar Delhi. A capital e terceira maior cidade da Índia, tem cerca de 14 milhões de habitantes e corresponde à junção de vários enclaves distintos - dos quais se destacam o de Old Delhi, com monumentos mongóis dos séculos XVI e XVII e bazares apinhados, e o de New Delhi, com grandes avenidas, mansões coloniais e edifícios administrativos, construída pelos Britânicos entre 1930-40 como a sua capital imperial.O objectivo do dia era portanto ver New Delhi, e reservar a parte antiga para o dia seguinte. Logo de manhã saímos para tomar um pequeno-almoço que se tornaria usual - masala chai, a "bica" lá do sítio (chá, leite, gengibre e etc.), tentámos em vão ir ao posto de turismo, marcar o comboio para Varanasi, e apanhámos um auto-rickshaw para Vijay Chowk, o centro administrativo e político.
Antes de continuar, convém dar a ideia do que é um auto-rickshaw, auto, rickshaw, tempo, tuk-tuk, máquina-de-morte, suícidio-na-estrada, ou qual seja o nome que se possa chamar. Aliás teríamos várias aventuras neste meio de transporte ao longo dos 40 dias de viagem. Basicamente trata-se de um caixão de ferro, em Delhi verde e com uma lista amarela, três rodas (1 à frente e 2 atrás) e um motor de relva debaixo do assento do condutor. Partindo desse conceito básico podemos ainda acrescentar os pormenores de não ter portas nem cintos-de-segurança, ter tecto de lona e limpa pára-brisas manual, dois ícones religiosos hindus (tal S. Cristóvão para taxista), lotação oficial de 3 ou real de 9 pessoas (sendo que pode chegar a 20 quando se trata de crianças a ir para a escola). Sem dúvida, é o meio de transporte mais usado em qualquer cidade da Índia e consegue atingir velocidades de 50 km/h, consistindo a sua condução na prática constante de razias e ultrapassagens impossíveis enquanto simultaneamente anda em contra-mão - tudo porque se trata do caminho mais curto ou mais rápido para o destino do cliente.
Apanhámos então esse engenho com a vã esperança de chegarmos ao destino. Não nos aleijámos, porém não chegámos lá. Efectivamente, o motorista daquela viatura bem que nos enganou, deixando-nos a longínquos metros do ponto pedido. Serviu de 1.ª lição, e nunca mais desgrudámos um rickshaw sem ter mesmo a certeza que estávamos no lugar pretendido.
Depois de muito andar no meio de "nada", lá encontrámos a Parliament House e o começo do nosso roteiro, na Vijay Chowk ou "Victory Square", uma grande praça no sopé do monte Raisina, que foi planeada como imponente preâmbulo à residência do vice-rei - hoje a residência presidencial (Rashtrapati Bhavan). A praça, vedada a carros não autorizados, está ladeada por dois edifícios clássicos do Secretariado (os North e South Blocks), que acolhem vários ministérios, assim como o gabinete do primeiro-ministro. Os ministros e funcionários do governo moram em espaçosos bungalows nas alamedas arborizadas das redondezas. Em frente a Vijay Chowk fica uma grandiosa avenida (Rajpath), árvores e fontes majestosas que se alinham nos relvados até à India Gate. Relvados esses surpreendentemente frequentados por casais de namorados, atitudes imorais noutros locais do país.
Na altura assistimos a uma pequena recepção oficial integrada na visita oficial do Presidente Lula da Silva à Índia, com direito a passadeira vermelha, banda, guarda-de-honra militar e bandeiras nacionais dos dois países ao longo de toda a avenida principal. Avenida essa que percorremos depois a pé, nos seus 3 km até à India Gate, no extremo oriental. A India Gate é um majestoso arco de arenito vermelho, erigido em memória dos soldados indianos e britânicos que morreram na Primeira Guerra Mundial, nas fronteiras da Província Noroeste e na Terceira Guerra Afegã. Debaixo do arco, interdito ao público, arde ainda uma chama em memória dos soldados que morreram na Guerra Indo-Paquistanesa de 1971.
Voltámos para Paharganj e fomos à estação de comboios de New Delhi comprar o bilhete para Varanasi. Tínhamos já desistido de ir ao posto de turismo do dia anterior e desta manhã. Na estação existe um gabinete com ar condicionado próprio para o atendimento de estrangeiros, onde a fila tem a característica inédita de ser sentada, obrigando-nos a de minuto-a-minuto saltar para o sofá ao lado.
É interessante este contraste com as filas "normais" noutros lugares. Já todos tínhamos ouvido falar de "fila indiana" na sua adaptação ocidental, mas a versão original que não conseguimos importar na sua essência é bastante diferente, sendo também em pé, mas consistindo em encostar o mais possível o nosso peito nas costas seguintes, obrigados pelo gesto idêntico do nosso predecessor, que nos empurra ainda os ombros, mesmo que não exista mais espaço entre o balcão e a cadeia de corpos (peitos/costas). Várias vezes me perguntei "mas porque raio é que me estás a empurrar!". O conceito de "espaço pessoal" ficou na Europa - um dos aborrecimentos da maneira de ser indiana, mas existem mais...
Bilhetes na mão, ou na carteira, o Philip telefonou para uma conhecida de Delhi, a Yamini, que ficaria depositária do seu computador portátil entre outras bugigangas, enquanto passeávamos a mochila no mês seguinte. Foi um bom pretexto para conhecermos a realidade de uma casa indiana e perceber que, à partida, eles são realmente hospitaleiros. Complicado foi talvez rever os conceitos de etiqueta indiana, um quanto diferentes dos ocidentais, aliás porque tínhamos sido convidados a ficar para o jantar.
Começando pelas saudações, a saudação tradicional indiana é Namaste (pronunciado "namastai"), sendo usada no momento do encontro ou da despedida (um pouco ambíguo, não é?). As palmas da mão são unidas e levadas em direcção ao rosto, enquanto a cabeça se inclina ligeiramente. Os mais velhos são tratados com grande respeito, sendo habitual os jovens cumprimentá-los tocando-lhes nos pés (o que fizemos na despedida, para regozijo da anfitriã, a mãe da Yamini). Os mais velhos tocam na cabeça dos jovens como gesto de saudação. Os pés são considerados a parte menos nobre do corpo, e os sapatos tratados como impuros. Ao entrar na casa tivemos portanto de tirar os sapatos, o que seria recorrente. Pisar alguém ou tocar com os pés noutro é considerado muito rude, daí que se opte por, quando sentado, manter os pés sob as pernas dobradas. Ao jantar a forma tradicional de apreciar a comida indiana é comer com as mãos, tendo sido isso que aconteceu. Usar a mão esquerda para levar a comida à boca é considerado impróprio, dado que esta tem funções menos nobres... Quando se oferece ou se recebe alguma coisa deve-se fazê-lo com o uso das duas mãos. Simples as regras.
Antes do jantar a Yamini fez-nos uma visita guiada ao templo hindu do bairro, onde ganhámos a primeira pinta da viagem. E as conversas basearam-se muito em variações das perguntas-tipo de sempre. Depois do regresso de auto-rickshaw, bem mais barato que o anterior na medida em que pusemos um indiano a regatear por nós, fomos para um bar onde ainda tivemos direito a mesa partilhada com uma inglesa e um jamaicano.


De Londres para New Delhi o estado de espírito seria o mesmo - dormente. Fiquei na janela direita da última fila do Boeing 777. Ao meu lado sentou-se um prezado senhor indiano, que aparentava mais de 50 anos. Na altura não suspeitava, mas seria ele o primeiro a inaugurar a série de perguntas-tipo que um indiano faz a um estrangeiro, várias vezes ao dia, todos os dias: de onde sou (excelente sítio!, mesmo que nunca o tenha conhecido), como me chamo (excelente nome!, mesmo que nunca o tenha escutado), o que faço na vida (excelente vida!, mesmo que não saiba nada dela) e para onde vou viajar na Índia (excelente itinerário!, mas podias ir ver mais coisas). Todos os indianos têm aspirações de vir a ser num qualquer momento ou em vários momentos das suas vidas guias turísticos. Está-lhes no sangue. Nenhum filme de avião me despertou curiosidade. Dormi novamente quase toda a viagem. Nos intervalos das 9 horas e 1/2 de sono, comia e olhava pela janela. Vi o Mar Negro, as montanhas do Afeganistão, os Himalaias.
Estava finalmente na Índia. Estava calor. Estava sozinho. Havia na altura, diga-se, algum nervosismo. A minha mochila desta vez não se tinha perdido e chegara comigo a New Delhi. 15 minutos bastaram para despachar as burocracias da imigração. Encontrei facilmente o quiosque dos PrePaid Taxi à saída do aeroporto. Uma solução para quem não quer começar a sua estadia a ser enganado por um taxista indiano, que repete as perguntas-tipo enquanto fuma um cigarro estranho e minúsculo, com acentuado cheiro a papel queimado. "Paharganj please". Os táxis de New Delhi são pretos com tejadilho amarelo. Paguei adiantado 200 rupias pela corrida, ficando com a posse do recibo que possibilitaria o pagamento diferido ao motorista. Não lho dei até ao fim da viagem, não me fosse deixar a meio do caminho.
Quando ele me apresentou o Main Bazaar de Paharganj engoli a seco. Onde é que raio seria o meu hotel? Ele bem me tinha dito que era do lado direito, numa ruela de 1 metro e 1/2 de largura, tipicamente saída de um filme asiático, carregada de gente, de perguntas, cumprimentos e de cheiros. Mas - too much information! A malta enchia todo o espaço das paredes com os mais diversos cartazes, placares, neons, setas, outdoors. Aliás, não se viam as paredes das casas. Era um amontoado publicitário todo aquele mercado de pequenas lojas. Para a visão destreinada de um ocidental destrinçar onde era a Ajay Ghest House era impossível. Desisti de procurar e perguntei. Estava mesmo à frente o "palácio". E até que não era mau, sendo espaçoso e tendo televisão. O preço foi de 400 Rs. por noite. É engraçado enunciá-lo porque já não me lembrava que tinha sido tão "caro", face ao que fomos passando a pagar ao longo dos 40 dias. Na última noite, no mesmo sítio de Paharganj, pagaríamos já 200 Rs. num hotel com ar condicionado e televisão.
Pousei a mochila e testei o colchão. Adormeci novamente. Às 09h00 batem à porta, era o Philip carregado com 3 malas, 1 às costas, 1 ao peito e 1 ao ombro. Após 3 meses na Índia, estava igual. Queríamos almoçar e saímos à procura daquilo que o Philip chamaria de "indian coffee shop", o local onde realmente os indianos almoçam. O nosso plano era passar entretanto por uma agência de viagens, para saber os horários dos comboios para Agra ou Jaipur (Rajastão). Íamos ainda ficar alguns dias em Delhi, mas queríamos comprar os bilhetes com antecedência. Na Índia, a Lei de Murphy porém é recorrente: "se algo pode correr mal, correrá mal". E tomar desde logo consciência disso, facilita bastante a vida porque vamos pensando sempre em soluções que resolvam hipotéticos futuros problemas.
Mesmo à saída do hotel teríamos o nosso primeiro "episódio", um jornalista de microfone na mão, acompanhado pelo respectivo homem-câmara, agarra-nos para nos fazer uma entrevista. Era da CNN/IBN News e o tema era - "se os distúrbios recentes dos Gujjars, uma etnia que pretende ver reconhecida o seu estatuto de tribo e reclama por representatividade no Parlamento, afastaria ou não os turistas de visitar o Rajastão durante os próximos dias, apesar de as estradas e caminhos-de-ferro estarem cortados pelas revoltas". Ficámos de boca aberta com a surpresa. "O quê? Não vamos poder ir ao Rajastão? Não vamos ver o Taj Mahal? Jaipur? Todos os palácios?". Incorporámos a coragem latina que eles não conheciam, e entre outros disparates respondemos com determinação. "Não, nós vamos na mesma. Seria impensável vir à Índia e não ir ao Rajastão". E assim tentámos enfrentar a fatal sina de que tudo o que é bem planeado na Índia acaba por ser sempre impossível, difícil ou improvável acontecer. Ainda nos filmaram durante 1/4 de hora a andar e a simular compras no mercado. “Tá quieto”. Era simulação. Deitar os olhos sobre uma banca indiana era um convite a ser raptado pelo mínimo por mais 1/4 de hora. E nós queríamos almoçar.
Um cycle rickshaw levou-nos até Connaught Place, uma série de edifícios dispostos em círculos que correspondem à baixa comercial de New Delhi. Era Domingo e estava tudo fechado. Vadiámos um pouco pelas ruas e isso foi meio caminho para sermos interceptados por um indiano pronto a ajudar o turista. Perguntas-tipo adiante, que já nos estávamos a habituar a responder automaticamente, apresentou-nos um pequeno restaurante que estava aberto. Após a perda picante do meu sentido "gosto" ao almoço, que seria recorrente, fomos procurar um posto de turismo/agência de viagens, para procurar saber se era ou não viável seguirmos com o que havíamos planeado. E, efectivamente era complicado. As estradas estavam cortadas. Duas dúzias de pessoas já tinham sido mortas nos confrontos. Não havia comboios. Não havia autocarros. Incendiavam-se carros. E ao que parece os Gujjars estavam a ponderar marchar sobre Delhi. O que viria a acontecer alguns dias depois. Pusemos então a hipótese de fazer algum tempo até as coisas acalmarem, indo para norte, para a zona de Shimla. Pois que nos foi alertado que, nessa região, as coisas também andavam um pouco atribuladas, não sendo a melhor altura para turistas. Tudo corria mal. Decidimos ir para Varanasi, e depois estudar melhor a situação, sendo que nos estava a ser sugerido conhecer Darjeeling e optar por fazer um trekking lá. À saída da agência fomos novamente interceptados pelo indiano do almoço que nos quer ajudar e promete orações por nós. Não quis nada em troca. Seria muito raro, generosidade desinteressada como aquela.
Durante a tarde ficámos por Paharganj. O Philip precisava de terminar o relatório de estágio que tinha feito e eu precisava de recuperar das viagens e das noitadas. De noite abrimos uma garrafa de vinho português oferecida pela Mónica, a coordenadora do Departamento Jurídico do CPR, onde eu tinha estada a estagiar, logo depois de o Philip ter estado lá. Soube bem, apesar de estar tão quente como o ar e terminou um dia em que basicamente dormi com o calor.


Até Londres dormi a viagem toda. Não me lembro de mais nada a não ser acordar para provar o pão-de-leite e o sumo de maçã que me ofereceram. A noitada já marcada fora grande e previsivelmente memorável, tanto que me fez adiar um dia a partida. Valeu a pena. Acordei apenas com o solavanco da aterragem. Em Heathrow esperei e vagueei 6 horas pelas lojas e espaços do terminal 4. Li o Público e o Diário de Notícias quase todos (incluindo os n suplementos). Almocei no Garfunkel's. Comprei um lote de pilhas para o Mp3. Assisti às brincadeiras de um puto com o seu pequeno avião. Desesperei da espera. E foi aí que comecei a escrever algumas coisas no moleskine que levava: "Primeira dúvida, escrevo a caneta ou a lapiseira? Depois como emendo quando e onde quero? Como acrescento "cenas", "episódios" e os etc.? Seja a caneta. E seja escrito à medida do pensamento, com a sua velocidade, complexidade, pára, arranca, vai ali e volta atrás. O moleskine, verdade seja dita, nem sequer deve chegar ao fim da jornada. Pelo menos inteiro. Nunca, de certeza, limpo e pálido. Talvez fique incompleto. Talvez não. Talvez sempre." Ficaria mesmo incompleto, porque dias depois perceberia que não havia paciência para gastar tempo a escrever tudo por extenso. Optaria então por fazer o sumário do que ocorrera em cada dia e fi-lo até ao último dia, anotando pormenores, pensamentos, situações. Agora encho o sumário com palha até lhe chamarem texto. Apreciem.

40 Dias na Índia


"Tal como um livro, uma viagem começa com impaciência e acaba com melancolia"
José de Vasconcelos

Uma viagem começa muito antes da partida. Esta, aliás, começou já há muito tempo, quando em Outubro passado comecei a pensar no que faria durante o meu "semestre sabático", no período desde o fim do curso e o início das jornadas "contínuas" de trabalho. Entre o voluntariado (que aumentava auto-estima e não apenas isso) e a assistência à investigação (que aumentava a conta bancária e também não apenas isso), uma grande viagem, uma "viagem de vida", esteve sempre nos meus planos. Tudo o que fiz este semestre serviu para aprender bastante, e crescer também muito, como já disse antes. Torno-me repetitivo. Mas uma viagem, como esta que planeei, era a "cereja em cima do bolo" (se bem que não goste nada de cerejas cristalizadas). Era uma forma de dizer: sou adulto! Querendo à força cuspir-me no Mundo, desenrascar-me e conhecê-lo. O momento de fazê-la seria agora e dificilmente depois de amanhã. 40 dias livres, como estes, só com licença sem vencimento, desempregado, muito rico ou depois dos 65. Ou então, já na eternidade, depois de morto. Portanto, era agora! Aliás "não deixes para amanhã o que podes fazer hoje" (a expressão "carpe diem" à portuguesa que também se aplica ao trabalho). E de mochila às costas aqui vou eu.
Uma viagem começa muito antes da partida. Repito-me novamente e de propósito. Começa quando nos afundamos em livros, guias, mapas ou páginas da Internet, quando esboçamos várias versões dos nossos roteiros, quando começamos a comprar o necessário, quando alimentamos a barriga da mochila, quando nos imaginamos a fazer isto ou aquilo. Aliás, uma viagem começa exactamente no preciso momento em que a imaginamos. A partir de então, estamos em permanente expedição. Esta viagem, assim sendo, vai já longa, com vacinas, vistos, compras, 1001 planos e alternativas, enfim. Ainda bem.
Nos próximos 40 dias, na medida em que a tecnologia e o humano estiverem disponíveis, tentarei passar para aqui o diário dela. Pequenas crónicas, que passarão para aqui vindas de um moleskine "caqui" (sempre me disseram que "homem que é homem" não deveria conhecer mais do que 5 cores), escrito nas vagarosas etapas de comboio. Esperemos que todos, eu inclusive, gostem e passem bons momentos. Se não morrer na valeta entretanto, a todos, até Julho.


Segundo o Google Analytics de há um ano para cá (Jun2006-Jun2007) 1.948 pessoas visitaram o blog, num total de 5.173 visitas.
O visitante médio perdeu cerca de 1m26s em cada visita, tendo vindo dos 5 continentes: Europa (4.711), Américas (439), Ásia (15), África (7) e Oceânia (1); o que se divide depois em 44 países. Dos mais estranhos: Camarões, Arábia Saudita, Coreia do Sul, Malásia ou Madagáscar (estes com apenas 1 visita cada, como é óbvio).
Apesar do blog ser de língua portuguesa apareceram visitantes com sistemas em 27 idiomas, entre os quais: inglês (755), espanhol (55), francês (33), alemão (15), italiano (6), neerlandês (3) e, imagine-se, japonês (2).
O dia com mais afluência de visitantes foi sexta-feira, 6 de outubro de 2006 e aquele que teve mais visitas absolutas foi quinta-feira, 14 de dezembro de 2006 (tenho de ir ver porquê).
A maioria dessas 1.948 pessoas fugiu do blog, tendo-o visitado apenas 1 vez e demorado menos de 10 segundos nele.
Vieram de 362 locais de rede.
39,44% veio directamente para o endereço do blog (já sabiam), 34,55% através de links noutras páginas e 26,16% através de motores de pesquisa. Quanto a links para o blog parece que existem 74, tendo contribuído para as visitas principalmente o Lágrima de Dor (318); o Nimbostratus (120); o Outro Lado do Sol (114); e o Bekices (87). A entrada sobre a música do anúncio da Galp "Over the rainbow" contribuiu bastante para as entradas por motores de busca dominadas pelo uso do google.
Viva as estatísticas do grande irmão Google.

Último dia no CPR


"Desde que existem as guerras, as perseguições, desde que reina a discriminação e a intolerância, há refugiados. Eles são de todas as raças, de todas as religiões e podemos encontrá-los em todas as regiões do mundo. Obrigados a fugir porque receiam pela sua vida e pela sua liberdade, os refugiados abandonam muitas vezes tudo o que têm - casa, bens, família - e o país rumo a um futuro incerto em terra estrangeira."

No Conselho Português dos Refugiados aprendi alguma coisa e sempre cresci mais um pouco. Para além das técnicas jurídicas relacionadas com imigrantes e requerentes de asilo. Para além da investigação sobre contextos socio-políticos estrangeiros. Disponibilizando o tempo livre que tinha, contactei com histórias mais surreais do que as de qualquer filme de cinema, estas então agora reais, concretas e com personagens ao vivo e colocadas à minha frente. A banalidade mediática da violência e dos acontecimentos narrados não permite a indiferença, mas sim uma expressão patética de "o dia cá continua no nosso quintal". E continua, mas agora inevitavelmente mais diferente. Obrigado pela experiência.